Adestrados

Meu pai ganhou um cachorro. Não que aqui no sítio onde vivemos já não tivesse. Pelo contrário, muitos já passaram por aqui, alguns ficaram e outros tiveram que ir. Eu até possuía um que se chamava Belgrado (ou chama, pois ainda vive) por conta dos refugiados da Sérvia, país onde estivemos trabalhando. Ele também era conhecido como “estopinha”. Pelos nomes que ele atendia, pode se imaginar um pouco de sua aparência. Teve que ir embora. Apesar de sua carinha fofa (isso não significa bonita), e de manipuladoramente ser dócil com os adultos, ele não gostava de criança. Tudo bem que meu mais velho não é a melhor vivência para um animal, mas ele mordia qualquer criança! Com a chegada do mais novo e sua fixação com cães, tive que decidir. Hoje está em outro lar sendo bem cuidado.

Voltando ao cachorro de meu pai, seu nome é Hulk, e já pelo nome percebe-se que possivelmente não é tão atrativo como o “estopinha”, mas nomes podem definir ou mascarar, depende do quanto quem ouve ser chamado absorve para si suas significâncias. De qualquer forma um dos motivos da ida do Belgrado também foi que ele já havia dominado o Hulk. Dizem que por região só existe um macho ômega, aquele que será o dono do pedaço. Apesar de cinco vezes menor do que o Hulk, Belgrado já tinha passado por momentos difíceis em sua vida, por isso sabia se posicionar. Enfim, meu pai queria um cão bravo depois das visitas indesejadas que tivemos, e meu cachorro não estava ajudando muito.

Com a partida dele, Hulk se sentiu mais livre, já que era o único cão. Meu pai vendo a possibilidade dele seguir o destino de tantos outros resolveu contratar um adestrador. Os netos e a avó, não facilitava o caminho para que os cães se tornassem de guarda. Até mamadeira a avó já dera para alguns que passaram por aqui. Mas dessa vez o avô estava decidido a deixa-lo bravo. Uma vez por semana pelas manhãs, vinha um rapaz com todo o seu equipamento e conhecimento, adestra-lo. Eu o observava de longe, e invejava: Como que de uma voz baixa e mansa poderia surtir tantos resultados? Enquanto eu ficava rouca só tentando fazer o menino escovar os dentes. Queria dar uma espiada em sua maleta para ver se não havia nada que pudesse ser útil para mim, mas acho que não ficaria bem meus meninos com aquelas coleiras e focinheiras.

Mas teve um dia que essa vontade ficou maior. O marido estava viajando, eu já estava cansada com o ritmo de mãe sem pai. Havia acabado de pegar o mais velho na escola e o bebê acompanhava. Chegando em casa o menino estava sensível por conta da saudade do homem do lar, e quando é assim, recorro ao outro homem mais perto, o avô. Como insistia muito acabei cedendo que o neto fosse à casa do vô, apesar do tempo curto que haveria até a natação. Ele saiu do carro e foi correndo, enquanto eu tirava as três bolsas mais o bebê (isso porque tinha ido apenas à escola). Não tinha visto que o avô estava em seu tempo de treinamento com o Hulk. Demorei um pouquinho e o caos já estava estabelecido. Filhote, independente da raça: criança ou animal, sentem o cheiro daquele que apronta mais e logo é atraído por este. Neste caso, não mais o Belgrado, mas o menino já havia dominado o cão. O avô se esforçava na técnica de adestramento, com sua voz firme pedia ao cão que parasse, deitasse etc… Mas, o menino mesmo distante com sua voz estridente atrapalhava todo o processo. Pedi que se acalmasse e ficasse do meu lado (quase gritando: JUNTO!), mas, mais uma vez percebi que havia adestrado mal. O avô um pouco impaciente com a situação, resolveu dar um tempo no módulo que estava praticando de adestramento e leva-lo para dar comida. Claro que o neto foi atrás, nem ousei gastar a mina saliva para impedi-lo.

Fiquei na casa da avó com o bebê que já necrosava meu braço por conta do peso, esperando o regresso dos três machos ômegas. Quando voltaram percebi que estavam disputando pelo espaço. O mais velho com razão falava da insubmissão do mais novo, já este não sabendo controlar suas emoções, ao ver seu desejo de particularidade com o avô sendo frustrado por conta do outro macho, o cachorro, resolveu aprontar todas para conseguir sua atenção. Por fim, o último pulava o muro tentando alcançar o bebê que estava agora nos braços da avó, para brincar de sua forma não delicada com ele. Novamente o caos fora instaurado!

Mais uma vez desejei os instrumentos do rapaz adestrador. Seria tão mais fácil, dizer: Para! E ele parasse, Deita! E ele deitasse. Dorme! E ai nem se fala, quase uma lágrima rolou de emoção imaginando a cena dele dormindo ao som de apenas uma palavra. Mas o que se via era uma criança incontrolada, e o avô que geralmente é mais gracioso do que a mãe (claro que isso só se tornou real depois de ser avô, quando pai a história era outra), falando o quanto ele estava desobediente. E eu respirando para não gritar: JUNTO! Peguei-o pelo braço e levei de volta para a casa.

O caminho de casa, apesar de curto, é bem convidativo a silenciar e pôr em ordem os pensamentos antes da chegada. E assim como no Caminho de Emaús, Ele veio manso e me convidou a observar melhor a situação. Não que o menino não merecesse uma varada (não sou contra e às vezes acho necessária uma correção de leve sem abusos), desonrar os mais velhos em especial avós, para meu conceito de criação é inadmissível. Mas a situação exigia um olhar com calma, afinal, ele é um ser dito racional, que tem escolhas e responsabilidades, mas também tem desejos e sentimentos. Larguei a coleirinha de choque de lado, abaixei à sua altura e falei com a voz mansa que 5 anos de faculdade de Teatro me proporcionaram: “Você está frustrado porque vovô não podia ficar com você hoje né?” Em lágrimas ele respondeu que sim. A “vara” cutucou na ferida certa. Acolhi seu choro, explicando que nem sempre podemos ter o que queremos no momento em que desejamos, inclusive quando se trata de quem amamos. Não precisava de muita falação ou sermão, menos ainda de uma varada. Tudo o que necessitava era que alguém fora do furacão desse voz à sua alma agitada.

Mais calmo, entrou em casa, e eu orgulhosa me senti a melhor “adestradora” de gente. Até alguns minutos mais tarde quando já estava gritando novamente para que ele vestisse sua roupa de natação.

“Por que estás assim tão abatida, ó minha alma? Por que te angustias dentro de mim?” Salmo 42.5

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