“Que lindo!” Foi a frase que a cria mais nova disse para mim no banco de trás do carro, enquanto seguíamos a estrada rumo à um rancho com a família que agora ocupa todo o carro. Olhei para fora através do para-brisa, para onde seu dedinho gordo apontava, mas não vi nada além do asfalto e da vegetação seca e empoeirada dessa época do Cerrado. “O que meu filho?” Perguntei a ele curiosa, pois estava trabalhando com eles sobre a contemplação do belo na natureza, e queria saber como ele estava direcionando seu olhar. Mais uma vez ele apontou para frente e repetiu a frase, um pouco mais veemente para que eu entendesse: “Lindo mamãe!” Olhei para frente, e ainda assim não via nada, voltei para trás, e disse desapontada: “Mamãe não está vendo.” Ao que me respondeu em seu limitado vocabulário de dois anos: “O rosto!”. O irmão que estava atento a todo o diálogo, disse interpretando o menino como um bom irmão mais velho: “Sua maquiagem mãe.” E o mais novo com um sorrisinho de quem havia sido compreendido afinal, confirmou, “A boca! Muito bonito!” Surpresa, lembrei que havia conseguido fazer uma rápida maquiagem, nos poucos minutos que me restaram, após, dar café para os dois mais velhos, amamentar o bebê, arrumar as malas para passar apenas um dia fora, kit de farmácia, kit de sobrevivência com tintas, balões, blocos de montar, etc… amamentar mais uma vez, apartar a briga dos dois mais velhos. Dar amendoim para o menino que rejeitara o misto quente que havia feito, dar banho no bebê que vomitou em si, trocar de roupa nos meninos, colocar um desenho para ver se conseguia amamentar mais uma vez, e etc… Quando o pai me chamou para sair, já eram 10:40 e eu ainda estava de pijama. Disse que em dez minutos estaria pronta. Tomei banho desembaracei o cabelo desidratado e já ia saindo, quando pensei que talvez conseguiria em um minuto fazer uma rápida maquiagem. Dostoievski disse uma vez que a Beleza salvaria o mundo, nesse caso, para a salvação de meu filho deu tempo de me maquiar.
Não pude deixar nos quilômetros que se seguiram, de pensar nessas palavras, e às vezes abria o quebra-sol para me olhar no espelho. Não era um olhar de vaidade, talvez se encaixasse mais em um olhar arrependido e confrontado. Passei a semana inteira, a partir do que estava lendo sobre a importância de se educar os sentidos e a estética a partir da contemplação da natureza, levando meus filhos, para observar as árvores sentindo toda a sua textura, ouvir o canto dos pássaros, enxergar as cores das flores e seus cheiros. Porém havia me esquecido que também faço parte dessa natureza e, cultivar as virtudes do belo, bom e verdadeiro em mim, também traz para meus filhos um artefato para contemplação, talvez em suas tenras idades, o mais próximo dos que eles têm contato. Descuidar-me, e não apenas no que diz respeito ao físico, mas também ao cultural, moral e ético, é privá-los de encontrar beleza em um importante arquétipo de suas vidas.
Como mãe, estou praticamente e fatalmente a mercê de cobranças relativas ao trato e cultivo de minhas crias, mas meu rapaz “do meio”, me mostrou nessa manhã, que me auto cultivar, diz respeito à educação deles tanto quanto a matemática e a gramática, mais ainda quando se é a única figura feminina da casa. Esse entendimento me trouxe ao mesmo tempo uma responsabilidade e uma gratidão por eles me enxergarem mesmo quando penso estar anulada.
Tirei os olhos do espelho e vi marginando a estrada, um Ipê do Cerrado, minha árvore preferida. Na época de estiagem quando todas as árvores se recolhem em um estado de hibernação, é quando suas flores amarelas canário aparecem, trazendo cor à fuligem das queimadas e à terra vermelha que empoeiram as folhas. Lembrei-me de que em uma dessas andanças contemplativas, o mais velho quis tirar uma foto dela, pois de alguma forma ela havia tomado sua atenção. Fiquei convencida que se quiser educar meus filhos na beleza, tenho que começar a partir de mim, me adornar para eles, mesmo em épocas de estiagem, pouca água para refrescar, e muita atividade interna em meio a hibernação. Esse será talvez o mais cativante ensinamento que legarei às minhas crias.
“Ser ou não ser? É melhor viver.” Foi assim que começou minha manhã, com minha cria de 6 anos recitando tais palavras eternizadas por Hamlet, de forma expressiva tal como a mãe em seu ofício, talvez até mais convincente. Elogiei a sua performance como aprendi a fazer antes de qualquer correção, e em seguida o corrigi, afirmando que na verdade se tratava de uma problematização: “Ser ou não ser, eis a questão.” Ele acreditando que aos seis anos já estava apto a responder a pergunta que perdura à séculos, argumentou contra Shakespeare: “Mas eu prefiro ‘viver’.” Dei de ombros, quem sabe daqui uns anos o apresentaria melhor aos clássicos e explicaria que estes, nós não mudamos, apenas aceitamos. Por enquanto me conformaria com seu desempenho cênico. Mas de alguma forma, mesmo em seu erro fatal, que perturbaria mais uma vez o espectro do pai de Hamlet, a declamação da criança não saiu de minha cabeça, também de certa forma, perturbando minha alma que ainda lutava para viver.
Dias antes, estava lendo outro clássico, cujas letras e vírgulas também, sacramentalmente não devem ser alteradas, quando me deparei com mais uma história de conflitos da família real. Nessa, o rei permanecera vivo, porém em aviso para pôr em ordem a sua casa, pois o seu dia havia chegado. O autor do clássico, que diferente de Shakespeare, ainda vive, e que talvez seja o único a me acompanhar sempre na leitura de seu livro, disse ao pé do meu ouvido que deveria fazer o mesmo. Petrificada, em estado de transe e rodeada por temores de uma pandemia que mata, sem aviso prévio, fiquei em silêncio, ou pelo menos tentei acalmar a alma que já pensava nos filhos de fora, e no que gerava. Quis fazer o mesmo que o rei da história: clamar por mais alguns anos, e por tamanha insistência, ganhar mais 15, mas esperei que o autor concluísse sua fala. Tal como nas tragédias que, para a trama se desenrolar, é necessário um conflito a se desenlaçar durante os dois primeiros atos e ser solucionado no terceiro, não recebi de imediato à compreensão da tragédia apresentada à mim. Mas como os fantasmas perturbaram Hamlet, fui atormentada nos dias que se sucederam.
Hoje chorei. A alma que até então, tentava manter mascarada dentro de mim, como em uma quarentena, berrou como criança frustrada que não consegue conter a birra. Chorei tal como as máscaras da tragédia, que expressam sem som. Tive medo! A notícia chegou mais perto, agora com nomes. Confesso que temi que alcançasse sobrenomes, fui egoísta, quis aninhar, isolar, proteger os meus, e me lembrei da fala: “Eu prefiro viver!”. Nossa essência rejeita a morte, porque para tal enredo não fomos criados. Mas estou de aviso prévio. Não sei se falo da morte da “matéria”, se for, faço dessa escrita uma carta de despedida. Mas mesmo se não for, contém o mesmo propósito.
Há um mês aproximadamente, minha casa está em ordenação, adequação de mais um membro que em breve chegará. São paredes pintadas, guarda-roupa comprado, cama deslocada, bebê realocado. Tudo planejado para um nascimento, porém o aviso dado é sobre a morte. Morte de um antigo estilo de vida, morte para uma rotina passada, morte para alguns projetos, morte para uma forma de ser e existir. A cada filho gerado, a alma da que gera é salva por passar pela morte da semente que renasce em vida. Um novo ritmo de tempo, uma nova configuração. E se o impulso for para continuar filosofando e questionando o sentido do antigo “ser ou não”, a alma não se aquietará. Podemos passar por esse tempo caótico que ao mundo foi imposto, como Shakespeare nos sugere em sua história, responder de forma obcecada aos apelos da tragédia como Hamlet, desejando manter e vingar a ordem anterior, ou atender ao outro roteirista em seu aviso de colocar em uma nova ordem, aquilo que nos é cabível. Por isso choro, respiro, questiono “porque está abatida ó minh’alma”, sem julgá-la, mas fico com a pureza da resposta da criança: “Eu prefiro viver!”.
Estava em minhas atividades cotidianas, quando escutei mais uma vez de meu filho mais novo sentado no sofá assistindo a um desenho, a temida frase: “Senta aqui!” Fora a primeira expressa por minhas duas crias ainda bem novinhas. Talvez pela necessidade que tinham de tal ordem ser cumprida, eles a apreenderam de forma surpreendente rápida. O pedido ou até mesmo o clamor da criança, me trouxe à memória uma tarefa imposta a mim de alguns poucos meses atrás: fazer com que o mais velho permanecesse sentado por alguns breves minutos, e se concentrasse em alguma atividade proposta.
Tudo começou com um bilhetinho de agenda que pensava demorar mais alguns anos para receber. Iniciava com um suspeito “Mãe” e pedia encarecidamente que eu tivesse uma conversa com meu pequeno, pois ele não estava conseguindo ficar sentado durante a aula. Eu já sabia do conteúdo, pois no medo e na ânsia que descobrisse antes dele me contar, o menino foi obrigado no dia anterior, a me preparar para um possível diálogo com sua professora. Perguntei a ele o que o impedia de obedecer à ordem da mestra, e ele acreditando ser o próprio Dom Quixote, disse-me que não desistiria de ajudar. Intrigada com sua fala, pedi para que me detalhasse melhor o motivo de sua decisão. Ele me explicou em lágrimas a situação de que alguns de seus colegas estavam tendo dificuldades com suas tarefas, e que lhe pediam ajuda, e ele tão generoso levantava de sua carteira e ia complacente ajudá-los mesmo sem a permissão da “tia”. Achei nobre de sua parte, e não quis desmotivar sua pura intenção, mas expliquei que naquele momento haveria uma pessoa mais apropriada para resolver a situação, a própria professora. Depois de argumentações, ele aceitou o fato arrependido, ou parcialmente arrependido. No outro dia respondi ao bilhete e disse que tudo já havia sido conversado, mas que eu estaria dentro de minhas possibilidades, acompanhando a questão e auxiliando-o em uma boa educação.
Passou se um mês ou pouco mais do que isso, e a tão temível pandemia chegou até nós. Juntamente com ela a possiblidade de trabalhar a tarefa me dada de forma intensiva e prática em um sistema educacional compulsório de “Homescholling”. Já há alguns anos tinha descartado essa possibilidade em minha casa. Confesso que cogitei algumas vezes, pelo estilo de vida que vivemos, mas sabia que por conta da minha saúde emocional e a dos meus filhos, estaria fora de cogitação, mas enfim veio a prova necessária. Sem a possibilidade das crianças irem à escola coube a nós pais, no meu caso, a mim mãe, tal atividade. Minha expectativa era grande, organizei o espaço, peguei os cadernos, relembrei questões pedagógicas apreendidas na universidade, e disse comigo mesma: “não tem erro, como uma boa mestra e artista que sou, conseguirei proporcionar um ensino leve e lúdico que meu filho em fase de alfabetização necessita”. Já nos primeiros minutos olhei repetidas vezes a vara posta em cima do armário da cozinha, mas me contive para evitar que o trauma fosse maior. Dias se passaram e minha preocupação maior não era se ele estaria absorvendo o conteúdo ou não, mas evitar que eu tivesse contrações parindo antes da hora e fazer com que ele ficasse sentado pelo menos por trinta minutos. Agora não tinha nenhum colega para ele ajudar em suas dificuldades, qual seria então o real motivo da insistência em sair daquela cadeira?
Em um desses temerosos dias, liberei a fera para sair e brincar com outras crias que também estavam retidas. Moro em uma comunidade com várias crianças de quase mesma idade. As mães se uniram em sororidade para planejar uma estratégia de guerra mais eficaz. Teríamos um horário onde todas as crianças permaneceriam em suas trincheiras, em condições de “lockdown”, para estudarem. Ao fim desse período do dia, elas estariam livres para extirpar toda energia restante. Soltei o filho mais velho, respirei por alguns minutos em minha cadeira com livros e lápis espalhados à minha frente e tomei coragem para acordar o bebê e perder meus parcos minutos do dia sem vozes clamando “mamãe”. Era necessário, ou do contrário seria penalizada à noite. Fui até o quarto, chamei o menino e aguardei até que se despertasse, pois ele tem seu próprio tempo. Enquanto isso, preparei uma frutinha picada e liguei “Masha e o Urso” para que ele se animasse e terminasse logo o processo. Ainda teria alguns minutos livres por isso voltei à cadeira, mas agora com um livro de adulto em mãos. Respirei profundamente me preparando para um tempo de permanência sentada em solitude. Mas antes de continuar, cometi o mesmo erro da mulher de Ló: olhei para traz. O que vi, foi minha herança, meu legado ao mundo, perdendo seu precioso tempo de capacitação assistindo um desenho nada educativo. Disse a mim mesma: “Eu nunca vou desistir de ajudar!” Levantei de minha cadeira, peguei o menino que incomodado resmungava, tirei forçadamente o pijama dele, e o arrastei até a varanda. Preparei a bagagem, o carrinho e seu patinete e disse, vamos brincar, achando que estava promovendo o bem à humanidade que viria após mim. Ele relutou, mas deu alguns pequenos e vagarosos passos até a cerca que separava minha casa da vida externa.
Sem olhar para trás, continuei minhas passadas no único caminho cimentado que tinha, mas quando novamente olhei, lá estava ele, sentado com dois carrinhos em mãos brincando e cantando. Não pude acreditar, chamei-o, ao que me respondeu apenas com um gemido: “hum, hum!” Tentei convencê-lo de diversas maneiras: “Vamos brincar com…”, e citei a seguir todos os nomes das crianças da comunidade incluindo o seu irmão. Mas a resposta variava entre o gemido, e um mais claro “Não!” Apelei e disse: “Vamos para o vovô!” Quando a resposta foi a mesma, percebi que havia perdido a guerra, e o que me restava era esperar o seu tempo, perdendo o meu precioso.
Enquanto ele permanece sentado deixa eu te passar uma informação que talvez você não saiba, as mães não apenas são mártires, mas elas gostam de se colocar nesse lugar a partir de torturas, mesmo quando não é necessário. Se não me bastasse o tempo de quarentena e o Homescholling, ainda assistia em meus minutos livres, vídeos de como ser uma melhor mãe. Não me pergunte o motivo. Em um desses documentários escutei uma frase, que vou reproduzi-la por completo para não correr o risco de simplificar em minhas palavras:
“As crianças ignoram os relógios, os relógios tem a função de submeter o tempo do corpo ao tempo da máquina, mas as crianças só reconhecem os seus próprios corpos como marcadores de seu tempo. Se as crianças usam relógios, elas os usam como brinquedo. Que maravilhosa subversão, usar a gaiola do deus Cronos, como brinquedo de Kairós, o Deus do tempo, da vida”.
Não creio que haja necessidade de dar uma explicação sobre a frase, qualquer coisa te dou um tempo maior para reler. Porém quero exemplificar. Há poucos dias tive a grande e sublime ideia de comprar um relógio para o menino de 6 anos, para que quando fosse solto de sua trincheira ele tivesse autonomamente em seu punho a orientação do toque de recolher. Quando li essa frase, veio à lembrança, as inúmeras vezes que tive de arrastá-lo à força e aos prantos, carregando o bebê em baixo do outro braço para retirá-lo da quadra em que brincava, tentando inutilmente explicar que estava anoitecendo e que poderíamos ter uma surpresa desagradável caso demorássemos mais, como uma cascavel no meio do caminho. Seria muita inocência minha acreditar que um relógio de super-heróis seria a solução. E o pior, iria enquadrá-lo ainda cedo nessa gaiola dita acima.
Voltando ao bebê que agora já mostrava indícios de que se levantaria. Fiquei ao longe observando o seu processo. Quando retornou a caminhada fiquei aliviada, pensando que agora finalmente ele poderia chegar ao seu destino onde aprenderia na prática a se relacionar, praticaria suas habilidades motoras e desenvolveria sua cognição. Mas apenas em alguns metros parou novamente, agora diante de um campo de plantas chamadas “Dente de leão”. Com suas pequenas flores roxas ou amarelas e minúsculas pétalas brancas que se espalham pelo ar com um leve sopro, elas exercem uma atração inexplicável em crianças. Saiu correndo entre elas, e soprando gritava para mim: “Olha mamãe! Que lindo! Que lindo!”. Impaciente, esperei por alguns minutos peguei-o pela mão e expliquei em baixo, porém claro tom o nosso objetivo final. Não sei o porquê não me entendeu como esperava, por isso coloquei o a força no carrinho e segui em frente passando pela tão temível casa dos avós. Mais um obstáculo ao destino ansiado.
Enfim, chegando à tão esperada quadra, lá estavam as crianças brincando e as mães exaustas sentadas em uma escada de cimento nada confortável, observando o desenvolvimento de seus filhos. Estavam todas ali, mártires de seu próprio rebento, gastando seus resumidos tempos livres falando deles. Relacionavam-se e apreciavam seus pequenos mestres plenos em seu tempo Kairós. Não havia a quem ajudar, a não ser por esporádicas brigas ou quedas dos pequeninos. Finalmente obedeci à ordem dada por meus dois mestres por longos anos, cuja quarentena fora como aula de reforço ou até mesmo prova de recuperação: Sentei!
Sábado à tarde, sol laranja do Cerrado compondo a terra vermelha que se infiltra nos sulcos dos pés rachados pela seca. O caçula havia dormido pela manhã, e seus olhinhos arregalados confirmavam a mãe que aquela tarde não teria tempo livre, enquanto o mais velho ao som do carro ligado à seu gosto, dançava com toda a energia de um corpo de 20 kg livre de espasmos e estresses. Cá estava eu só sonhando em escaldar os pés e orgulhosamente “fazer a unha” (Aprendera cedo com minha mãe a não depender de manicures). Apesar de ser uma atividade rotineira, ainda me pergunto se não seria um adorno desnecessário, e um tempo gasto inutilmente, já que na semana seguinte as cutículas, que às vezes incomodam apenas a mim, e para muitos é um sinal de proteção à unha, voltarão. Porém ainda insisto em manter a atividade em minha agenda semanal. E o pai vendo minha frustração de ter o tempo de beleza da semana se exaurindo com toda euforia das crianças, arma na varanda uma piscina de plástico azul e liga a mangueira.
Com o alicate em mãos, uma perna dobrada sobre a outra e as costas encurvadas, ora olho para os pés encardidos da terra, ora para as crianças sendo desencardidas pela água. Vejo a maldade escancarada do mais velho com o mais novo, e a do mais novo sendo formada, à medida que se vê penalizado pela idade. Como uma atenta mãe, interfiro, porém percebo que as tramas armadas estão incomodando apenas a mim, por isso, finjo cegueira, e me concentro na cutícula de onde agora escorre sangue, pois acabara sendo rasgada pela desatenção. Limpo com a pequena toalha enfeitada por um macramê já desgastado, feita para a caixa de enxoval já tomada por brinquedos, árvore de natal, e malas, coloco um pouco de açúcar cristal (mandinga ensinada também pela mãe), e vejo o sangue aos poucos sendo estancado.
A partir dessa violência ao meu pé, compreendo que o ambiente já não está tão seguro para tal atividade, por isso resolvo gastar meu curto tempo para cuidar daquilo que também não pude durante a semana que passou. Encho o regador e me direciono às folhas secas do “Bastão do Imperador”. Há dois anos, minha varanda situada em um sítio de uma cidade do interior de Minas Gerais, não tinha sequer um cacto para seu adorno. Não era adepta ao cultivo de plantas, e também viajava muito para tal atividade. Via minha casa como albergue de passagens, e plantas naturais sugerem um lar. Nessa época tínhamos apenas um bebê que ainda me permitira essa vida mais nômade. Mas em um determinado dia, o marido em uma viagem ao sítio dos tios, trouxe algumas pequenas e delicadas mudas de plantas desconhecidas. Quando vi as mudas, disse enfática para ele que não esperasse de mim qualquer envolvimento nesse novo projeto, não gostava e não levava jeito para. Me tranquilizou e falou que ele próprio cuidaria. Acreditei! Plantou algumas mudas em latas de leite e a muda do bastão do imperador no canto direito da varanda. Disse que dava uma flor encantadora. Dei de ombros, tentando mostrar indiferença.
Passaram se algumas semanas, e é claro que com tantas viagens do marido alguém teria que assumir a investida. Dava-me pena ver as plantas morrendo por conta da ferrugem da lata. Comecei a pegar gosto pela atividade, e por conta do segundo filho juntamente com um desejo instintivo maternal de preparar o ninho, comecei a apreciar e desejar uma casa com mais raízes. Mas era preciso tempo para cultivar essas raízes, tal como para cultivar um lar. Falando dessas, o bastão do imperador, apreciou o lugar que estava e começou a crescer verticalmente e horizontalmente, mais do que o espaço suportava. Contudo agora suas raízes emaranhadas e mais resistentes do que qualquer outra planta que manuseei, já estavam invadindo a parte cimentada. As flores rosas no cume de bastões parecendo de plástico, com pequenos brotos amarelos e vermelhos, eram de uma beleza inenarrável. Porém suas folhas agredidas pelo sol e pelo telhado baixo demais para sua estatura cobriam sua beleza.
Algumas semanas/ meses se passaram, as cutículas foram mexidas algumas dezenas de vezes, porém o jardim continuava o mesmo. As distrações e correrias me impediram novamente de olhar para a necessária poda, e dessa forma, não mais apenas formigas e folhas queimadas, mas abelhas e pragas invadiram o canteiro particular. Era preciso aproveitar que havia passado o tempo de estiagem, onde banhos de mangueira não eram mais necessários, pois foram trocados por banhos de chuvas, e definir o que fazer com o canteiro da direita, já que não estava belo o suficiente para continuar, apesar da insistência das esplêndidas flores cor de rosa enfeitando o bastão, resistirem e me convencerem à sua permanência no local plantado.
Tomei coragem e chamei meu vizinho para realizar a poda. Dizem que se quisermos ter uma poda mais efetiva é isso que devemos fazer, pois não reconhecemos o quão severamente deve ser ela, e nosso afeto compromete a eficácia. Coincidentemente o vizinho era meu próprio pai, que nunca teve nenhuma sensação de comiseração, quando era necessário que eu fosse podada. Pegou seu instrumento, uma grande tesoura afiada e iniciou o processo. Enquanto cortava eu ia retirando os ramos espalhados. Alguns pequenos tocos ficaram, e minha pressa pelo almoço já me impulsionava a deixar mais uma vez a poda para mais tarde. Mas a perseverança ou poderíamos chamar de obstinação de meu vizinho com seus cabelos brancos não me permitiram permanecer em minha rotina de sobrevivência, e tive que esperar ele com todo o seu esforço retirar no talo os antigos ramos. Fim da poda, fomos suprir o corpo. A alma estava ferida ao ver o canteiro vazio, entretanto minutos depois veio uma chuva forte, inesperada pelo calor que fazia e assim como com a terra, refrescou corpo, alma e espirito trazendo à lembrança de dois anos atrás quando as pequenas mudas foram plantadas. Essa memória trouxe esperança.
Quem dera fosse apenas esse jardim ameaçado! O jardim dEle também o foi, e agora sofremos à dura penas o mal de não termos podado no período correto. Ou será que estamos sofrendo a graça e misericórdia de sermos podados fora do tempo. Ele nos tirou, a partir de uma pandemia permitida, de dentro do nosso tempo, nossa rotina de sobrevivência, de cutículas e unhas adornadas, para nos inserir em seu tempo sabático e sermos podados. Retirar pragas, matos e folhas secas que impedem a luz de entrar e que escondem pragas.
O sábado voltou, porém agora mais estendido dura sete dias. A varanda é mais visitada pelos moradores que tentam se acostumar em simplesmente não ter pressa. O tempo parou ao redor do Jardim, e cada um tem a oportunidade de continuar sangrando sua própria cutícula na rotina, ou pegar o instrumento de poda e cortar o que impede uma nova folhagem. E mesmo que o canteiro, por um breve período permaneça aparentemente sem vida, existe a fé que não tem a ver com irracionalidade, mas com convicções de leis invisíveis e naturais. Leis plantadas por um homem, confundido por uma mulher como o jardineiro de seu próprio túmulo. E essa mulher a mais de 2000 anos foi questionada: por que estava ali, entre os mortos, procurando aquele que vivia?
Estamos em quarentena, em plena quaresma, deixemos morrer, podar, aquilo que não tem vida. Sentemos em nossas varandas com a graça de termos ao nosso lado, os pares que escolhemos conviver, entreguemos nossos instrumentos de corte e poda, ao homem com aparência de jardineiro, que sabe o que é morrer, mas também o que é renascer. Celebremos o domingo de páscoa, mesmo que ainda seja sábado.
Meu pai ganhou um cachorro. Não que aqui no sítio onde vivemos já não tivesse. Pelo contrário, muitos já passaram por aqui, alguns ficaram e outros tiveram que ir. Eu até possuía um que se chamava Belgrado (ou chama, pois ainda vive) por conta dos refugiados da Sérvia, país onde estivemos trabalhando. Ele também era conhecido como “estopinha”. Pelos nomes que ele atendia, pode se imaginar um pouco de sua aparência. Teve que ir embora. Apesar de sua carinha fofa (isso não significa bonita), e de manipuladoramente ser dócil com os adultos, ele não gostava de criança. Tudo bem que meu mais velho não é a melhor vivência para um animal, mas ele mordia qualquer criança! Com a chegada do mais novo e sua fixação com cães, tive que decidir. Hoje está em outro lar sendo bem cuidado.
Voltando ao cachorro de meu pai, seu nome é Hulk, e já pelo nome percebe-se que possivelmente não é tão atrativo como o “estopinha”, mas nomes podem definir ou mascarar, depende do quanto quem ouve ser chamado absorve para si suas significâncias. De qualquer forma um dos motivos da ida do Belgrado também foi que ele já havia dominado o Hulk. Dizem que por região só existe um macho ômega, aquele que será o dono do pedaço. Apesar de cinco vezes menor do que o Hulk, Belgrado já tinha passado por momentos difíceis em sua vida, por isso sabia se posicionar. Enfim, meu pai queria um cão bravo depois das visitas indesejadas que tivemos, e meu cachorro não estava ajudando muito.
Com a partida dele, Hulk se sentiu mais livre, já que era o único cão. Meu pai vendo a possibilidade dele seguir o destino de tantos outros resolveu contratar um adestrador. Os netos e a avó, não facilitava o caminho para que os cães se tornassem de guarda. Até mamadeira a avó já dera para alguns que passaram por aqui. Mas dessa vez o avô estava decidido a deixa-lo bravo. Uma vez por semana pelas manhãs, vinha um rapaz com todo o seu equipamento e conhecimento, adestra-lo. Eu o observava de longe, e invejava: Como que de uma voz baixa e mansa poderia surtir tantos resultados? Enquanto eu ficava rouca só tentando fazer o menino escovar os dentes. Queria dar uma espiada em sua maleta para ver se não havia nada que pudesse ser útil para mim, mas acho que não ficaria bem meus meninos com aquelas coleiras e focinheiras.
Mas teve um dia que essa vontade ficou maior. O marido estava viajando, eu já estava cansada com o ritmo de mãe sem pai. Havia acabado de pegar o mais velho na escola e o bebê acompanhava. Chegando em casa o menino estava sensível por conta da saudade do homem do lar, e quando é assim, recorro ao outro homem mais perto, o avô. Como insistia muito acabei cedendo que o neto fosse à casa do vô, apesar do tempo curto que haveria até a natação. Ele saiu do carro e foi correndo, enquanto eu tirava as três bolsas mais o bebê (isso porque tinha ido apenas à escola). Não tinha visto que o avô estava em seu tempo de treinamento com o Hulk. Demorei um pouquinho e o caos já estava estabelecido. Filhote, independente da raça: criança ou animal, sentem o cheiro daquele que apronta mais e logo é atraído por este. Neste caso, não mais o Belgrado, mas o menino já havia dominado o cão. O avô se esforçava na técnica de adestramento, com sua voz firme pedia ao cão que parasse, deitasse etc… Mas, o menino mesmo distante com sua voz estridente atrapalhava todo o processo. Pedi que se acalmasse e ficasse do meu lado (quase gritando: JUNTO!), mas, mais uma vez percebi que havia adestrado mal. O avô um pouco impaciente com a situação, resolveu dar um tempo no módulo que estava praticando de adestramento e leva-lo para dar comida. Claro que o neto foi atrás, nem ousei gastar a mina saliva para impedi-lo.
Fiquei na casa da avó com o bebê que já necrosava meu braço por conta do peso, esperando o regresso dos três machos ômegas. Quando voltaram percebi que estavam disputando pelo espaço. O mais velho com razão falava da insubmissão do mais novo, já este não sabendo controlar suas emoções, ao ver seu desejo de particularidade com o avô sendo frustrado por conta do outro macho, o cachorro, resolveu aprontar todas para conseguir sua atenção. Por fim, o último pulava o muro tentando alcançar o bebê que estava agora nos braços da avó, para brincar de sua forma não delicada com ele. Novamente o caos fora instaurado!
Mais uma vez desejei os instrumentos do rapaz adestrador. Seria tão mais fácil, dizer: Para! E ele parasse, Deita! E ele deitasse. Dorme! E ai nem se fala, quase uma lágrima rolou de emoção imaginando a cena dele dormindo ao som de apenas uma palavra. Mas o que se via era uma criança incontrolada, e o avô que geralmente é mais gracioso do que a mãe (claro que isso só se tornou real depois de ser avô, quando pai a história era outra), falando o quanto ele estava desobediente. E eu respirando para não gritar: JUNTO! Peguei-o pelo braço e levei de volta para a casa.
O caminho de casa, apesar de curto, é bem convidativo a silenciar e pôr em ordem os pensamentos antes da chegada. E assim como no Caminho de Emaús, Ele veio manso e me convidou a observar melhor a situação. Não que o menino não merecesse uma varada (não sou contra e às vezes acho necessária uma correção de leve sem abusos), desonrar os mais velhos em especial avós, para meu conceito de criação é inadmissível. Mas a situação exigia um olhar com calma, afinal, ele é um ser dito racional, que tem escolhas e responsabilidades, mas também tem desejos e sentimentos. Larguei a coleirinha de choque de lado, abaixei à sua altura e falei com a voz mansa que 5 anos de faculdade de Teatro me proporcionaram: “Você está frustrado porque vovô não podia ficar com você hoje né?” Em lágrimas ele respondeu que sim. A “vara” cutucou na ferida certa. Acolhi seu choro, explicando que nem sempre podemos ter o que queremos no momento em que desejamos, inclusive quando se trata de quem amamos. Não precisava de muita falação ou sermão, menos ainda de uma varada. Tudo o que necessitava era que alguém fora do furacão desse voz à sua alma agitada.
Mais calmo, entrou em casa, e eu orgulhosa me senti a melhor “adestradora” de gente. Até alguns minutos mais tarde quando já estava gritando novamente para que ele vestisse sua roupa de natação.
“Por que estás assim tão abatida, ó minha alma? Por que te angustias dentro de mim?” Salmo 42.5
Já faz alguns dias que alguns tucanos vieram habitar a
árvore de frente à minha casa. Aproximadamente uns 4 ou 6. Tive a impressão de
serem 5 mas como li sobre eles e descobri que são monogâmicos, prefiro
acreditar que estão em pares. Não sei exatamente o motivo de virem em alguns
períodos para a nossa região. Nem sempre os tenho em meu quintal, mas quando
eles vêm gosto de sentar em minha varanda e apreciá-los. São aves de uma beleza
rara que quase também se tornaram raros por conta do homem. Creio que eles vêm
em tempo de acasalamento e estão ali preparando sua casa temporária. Macho e
fêmea constroem o ninho, mas quando os filhotes vêm, o macho fica por conta da
provisão e a fêmea do cuidado e da proteção. A natureza não tem medo de
distinguir papeis.
Para estes 4, 5 ou 6, sua nova habitação é uma árvore não
tão alta, mas frondosa, tem algo que não sei bem definir se é fruto, mas que
possui uma semente bem interessante vermelha. Fica ao lado do caminho de casa e
é a árvore que meu filho mais velho ama subir e se esconder para me dar susto.
Apesar da quantidade de formigas presente nela, e de sua alergia grave por
esses insetos, prefiro deixa-lo correr o risco de ao final do dia tomar uma
injeção de adrenalina, do que tirá-lo do prazer e gosto da infância que
cultivarão suas memórias. Não sei se os terei por muito tempo, já que o tempo
de incubação de seus ovos é apenas 15 dias. Quem dera se também o nosso fosse
semelhante, talvez eu animasse ter 4 crias. Mas enquanto estão, habitam.
Viajei no carnaval um pouco a contragosto. Era uma viagem rápida de apenas dois dias,
mas temi não ver meus vizinhos na volta e, além disso, as duas crianças estavam
severamente gripadas. Iria submetê-las a uma viagem para um lugar desconhecido,
com pessoas que também não conhecia, apesar do cuidado que tiveram ao separar
um quarto de hotel para nossa família. De qualquer forma não estaria no
conforto do meu lar. Mas tinha prometido que teríamos uma viagem em família,
por isso cumpri, já que o mais velho estava semanas contando as noites que
faltavam para a viagem.
É interessante como criança contabiliza o tempo. Sua vida
ainda curta e imatura a impede de perder dias ou horas, acreditando ser
infinita tal como o adulto acredita. Já faz 11 meses que quase todos os dias
ele me pergunta quanto falta para seu aniversário. Para que ele entenda melhor
a noção de tempo, falo sobre suas noites dormidas – apesar de que pra ele é o
tempo mais desperdiçado do dia. Estava conseguindo trabalhar sua ansiedade, até
que um amigo meu perguntando que dia era sua festa, e ao dizer a data do
nascimento, alegremente compartilhou que faltava muito pouco. O menino pulando
na cadeira, perguntou o quanto. Fiquei gélida sabendo da resposta e da possível
reação, mas quis ver o desfecho da história. “Três”, respondeu o adulto em sua
noção de tempo. “Eba!!! Três noites.”, “Não! Três meses.” A criança com um
olhar curioso olhou para a mãe, que sabendo a pergunta respondeu: “Noventa
noites”. Ao ver a decepção em lágrimas o adulto logo entendeu o quanto a noite
acompanhada do dia para essa criança tinha mais valor do que para ele.
Enfim, era uma viagem de apenas uma noite, nem ao menos pensei que poderia desse pequeno
espaço de tempo, nascer uma crônica. Acordamos bem cedo, achando que colocaria
as duas crianças dormindo ainda no carro. Mas o mais velho levantou ainda mais
cedo com medo de ser esquecido. (Isso porque ainda não assistiu ao filme de Macaulay
Culkin). Tudo aparentemente organizado dentro do carro, as duas crias acordadas,
tossindo muito para agravar a culpa da mãe irresponsável. Saímos ainda com a
neblina baixa, uma viagem de apenas três horas – incontáveis para o menino.
Fomos direto ao local onde o marido iria palestrar. Era uma chácara, que estava
coberta de poças por conta da chuva e tinha duas piscinas realmente chamativas
com sua água cristalina e gelada. Nem preciso dizer que não durou muito tempo
para que os dois gripados estivessem encharcados. O Bebê por conta das poças e
a criança porque não suportou o fato de ver duas piscinas vazias de pessoas,
mesmo com o tempo fechado e as nuvens carregadas. Mais uma vez não consegui
privá-los da vivência, mesmo sabendo da possível consequência na noite que
viria.
Passamos a manhã e inicio da tarde no local, e depois fomos
ao hotel a fim de descansar. Porém os dois exploradores que gerei não
permitiram os pais nem ao menos fechar os olhos. Era um quarto de hotel
pequeno, porém bem aconchegante. Não tinha muito espaço para as crianças, mas
quem disse que se importaram? Nós adultos é que pensamos necessitar de espaços
apropriados para cada atividade, eles criam e logo uma cama, branca, assepticamente
limpa se transforma em um pula-pula. Voltamos à noite ao local do encontro, a
criança já tinha encontrado seus pares, e mesmo estando um pouco calor, eu
agasalhava os dois na tentativa do estrago ser menor. Mas ambos insistiam em
ficar no sereno. Por fim desisti e entreguei ao destino.
Voltando ao quarto de hotel, como esperado, tivemos uma
longa noite. Chegaram dormindo. Respirei aliviada devido ao cansaço do dia.
Colocamos ambos em seus respectivos espaços, O mais velho em uma cama de canto
e o mais novo em um pequeno berço desmontável. Deitamos exaustos. Mas logo que se
passou uma hora o bebê acordou por algum incômodo, não sei se advindo da gripe
ou do calor que a mãe proporcionou proibindo o ar-condicionado. E assim se
repetiu a cada hora, até que enfim colocamos ele entre nós e eu fui dormir
cheirando o chulé do pai.
Amanheceu, e as olheiras não escondiam a noite mal dormida. Arrumamo-nos,
tentando conciliar o espaço apertado do quarto de hotel. Colocamos tudo nas
duas pequenas malas e fomos em direção à chácara onde se encontravam os pares
do menino e os jovens que participariam de mais um dia de palestra.
Tentei tirar da reserva o combustível para correr atrás do
bebê que impressionantemente não perdera o ritmo depois dessa noite mal dormida.
O garoto já colocara a sunga e nadava como um peixe em uma piscina quase
olímpica. A manhã acabou, e como era de se esperar o pequeno estava se
esforçando para manter os olhos abertos. Almoçamos rápido despedimos dos recém-conhecidos
e organizamos a tralha no carro para voltarmos. Mal entrou no carro, dei o
remédio, pois estava febril e o bebê dormiu. Dificultosamente forçávamos o mais
velho a entrar depois que se despediu dos novos amigos.
O marido ligou o carro. Pedíamos silêncio ao mais velho que
contrariado lamentava o porquê de ter que ir embora. Pensei em todos os
argumentos legítimos para responder, até que uma pergunta dele silenciou minha
alma, a fim de mais uma vez aprender com a criança: “Podemos morar aqui para
sempre?” “Oi????” Eu que ansiava chegar em minha casa, em meu espaço, sentar em
minha varanda na cadeira de fio e observar quieta se os tucanos ainda habitavam
a árvore, fiquei perplexa. O que ele viu de tão interessante que o faz pensar
na possibilidade de deixar seu quarto cheio de brinquedos, sua casa
aconchegante em troca de um quarto de hotel? Mas algo me encaminhou para o
campo de suas ideias, e percebi que em seus conceitos, casa não tinha ligação
com espaço físico, mas com pessoas. Sua habitação e aconchego estavam nos pares
que ele permitiu dividir o seu espaço durante os dois dias. Tais como os
Tucanos que migram buscando ninho para si e encontram com seus pares. Refleti
sobre isso durante toda a viagem, e assim que cheguei à varanda de casa olhei
para a árvore e lá estavam eles, pretos com seus bicos laranja, aguardando meu
retorno. Assentei observei, até que ouvi o primeiro: “Mãe!” e entrei para
habitar com meus pares.
“Até o pardal encontrou morada, e a andorinha ninho para si, para abrigar seus filhotes, um lugar próximo ao teu altar, ó Eterno dos exércitos” Salmo 84.3
Estava eu em
meu cotidiano, como diz Chico Buarque, fazendo tudo sempre igual, sendo
sacudida às seis da manhã, com um choro pontual e uma boca que não poderia
beijar ninguém até às dez, quando possivelmente estaria exalando hortelã, ou
quem sabe se a manhã fosse tranquila, com um gosto de café. Depois de ter
amamentado, brincado de forma lúdica e pedagógica com o pequeno, até que o
furacão acordou e tomou toda a atenção para si, chegou o momento dos dois
compartilharem o mesmo desenho. Dessa vez o mais velho ganhou a discussão e
coloquei ao invés de Mozart do “Baby Einstein” a voz irritante de uma garota
loirinha que atazana a vida de um urso. Enquanto isso fui realizar a dura
tarefa de colocar em ordem o que uma hora de criança acordada faz. Após recolher os brinquedos (algumas mães
conseguem deixa-los espalhados até que eles realmente parem de brincar,
infelizmente ainda não abracei o caos nessa magnitude), fui lavar a louça, na
expectativa de pelo menos ensaboá-las antes do primeiro: “MÃE!!” Frustrei me. A
cria mais velha, gritou que estava com fome. Respirei profundamente tentando
lembrar porque mesmo ele rejeitou o ovo que tão cuidadosamente preparei para o
horário separado para o café da manhã? Calei e lembrei que seria mais uma
batalha travada inutilmente. Disse como uma boa mãe que zela pela saúde
nutricional da família, que era a hora da fruta (me arrependi no exato momento
que terminei a frase, a bolacha recheada seria tão mais prática) Empinei o
nariz e mantive a ordem apesar da lamúria vindo da sala. “Tudo bem, eu quero
laranja!” disse ele parecendo adivinhar que dessa forma também me castigaria.
POR QUE????? Banana, maça, são tão mais simples, a primeira até ele descasca, a
segunda se como eu, você também não é do tipo mãe orgânica, é só dar uma
esfregadinha na pia e pronto. Mas laranja! Essa precisa de anos de treino,
habilidades psicomotoras, dom da paciência e muito mais. Mas ele estava
decidido, laranja é uma fruta e ponto.
Saiba que
aprendi a descascar laranja aproximadamente com 34 anos, ou seja, no ano
passado. Tá, eu até tentava e para mim estava tranquilo, quando o estrago era
muito eu comia o bagaço e já era. Mas para eles não, tem que estar na medida,
nem muito fina para que não corra o risco de furar e a sujeira ser maior, e nem
com tiras verdes, para que não queime a boca do bebê. Mestre era meu pai.
Descascava uma laranja como ninguém, a espiral era completa, sem quebras pelo
caminho, dava gosto de olhar aquela faca fina e afiada de cabo de madeira
marrom deslizando ao redor da laranja, era quase uma arte marcial, talvez o seu
Miyagi devesse ter tentado usar em sua técnica de Karate.
Quando era criança, todo dia na hora do almoço, minha mãe colocava as sete panelas de ferro na mesa, uma comida típica mineira que na época eu ainda não sabia apreciar devidamente (ainda não sei como conseguia, aqui em casa no máximo são duas, misturo tudo para sujar menos louça, quando não busco em uma marmita da casa dela que é minha vizinha). Enquanto isso meu pai sentava com as cinco laranjas em sua frente e começava a sua arte. Uma era dividida no meio, a outra era com uma tampa triangular que proporcionava mais suco, e a minha era a com tampa menor. Não sei o porquê do sabor da tampinha ser mais gostoso em relação ao restante da laranja, mas para mim era.
Teve até uma época que ele comprou uma maquininha de descascar. Era bem rápida. Mas também ela rapidamente foi deixada em desuso. Era funcional, mas não cumpria todo o papel que deveria cumprir como o modelo artesanal. Era um tempo em que sentávamos e realmente estávamos ao mesmo tempo à mesa. Não me lembro de sensação de pressa desse momento. Não que os pais não a tivessem, com certeza minha mãe tendo a profissão que nunca tem fim o checklist, “dona de casa” e meu pai também em período integral, tinham metas e horários para cumprir. Mas esse tempo era sagrado. Nenhum barulho de louça sendo lavada, nenhum telefone sendo atendido. Era o tempo da mesa. Mal sabiam eles que as panelas espalhadas na mesa, ou a casca da laranja em espiral em um prato junto com as tampas já espremidas, poderiam depois de mais ou menos 27 anos me ensinar algo. Eles simplesmente estavam vivendo o seu cotidiano, registrado nos pequenos e potentes HDs de seus filhos, acessado assim que o primeiro sumo da casca chegou em minhas narinas naquela turbulenta manhã.
Parei a faca no momento exato que senti o cheiro da fragrância. Memórias são surpreendidas pelos nossos sentidos. Inspirei tentando absorver todo significante do momento. Minha pressa embalada em caixinhas de suco ditos 100% natural estagnou e descasquei como quem dança ao som de Mozart, apesar da voz da Macha. Sabia que não tinha a ver apenas com a vitamina C que também podemos repor em gotas. Era o tempo de pausa, perdido ao descascar uma laranja, tentando feri-la menos o possível, que enriquecia o encontro, pois em minha alma camadas também estavam sendo retiradas em espirais. Na pressa feria, ou deixava rastros, mas aos poucos na prática que a maternidade dá para a reconstrução de um ser adulto, ela finalmente estava pronta para ser espremida, esmagada, a fim de sair um suco doce para o outro saborear.
Fui até a sala com duas metades de laranja, o menino fez festa ao vê-las e sem tirar os olhos do urso que corria para conter a bagunça da pequena menina começou a apreciá-la. Já com o bebê, sentei ao seu lado e lentamente ia apertando a laranja enquanto ele a chupava de forma barulhenta. Observei bem os dois rostinhos que não me notava, e nem apreciava o esforço que a mãe fizera ao descascar a laranja naquela manhã, mas me contentei em ser pressionada e saboreada, sabendo o quanto fui nutrida por essa experiência anos antes em minha própria infância. Era tempo de me oferecer à mesa.
Dois dias antes da tragédia que assumiria as principais
notícias no lugar do filho do presidente, estava eu tentando passar as
incontáveis horas do dia que as férias proporcionam aos pais, com meus dois
pequenos na comunidade onde vivo.
O mais velho já tinha se perdido com as outras crianças entre
as folhas mortas, úmidas do orvalho, e o mais novo estava sob supervisão do
olhar atento da mãe. Não tinha nada de muito perigo, a não ser uma pequena
erosão no solo de cimento com um punhado de terra umedecida. Logo quis ele
colocar a mão. Dei uma bronca (como diz os mineiros) e contrariando o bebê
lavei em seguida a mão e o rostinho que ficaram um pouco sujo. Tudo estava em
ordem e em segurança. Até a chegada de um homem, que nesse momento nem pareceu
pai, ou pelo menos se esqueceu do que é ser um e assim perdeu a solidariedade
com a mãe que desfrutava um pouco de paz conversando com outras mães.
Um pouco acima de nós, pegou uma mangueira e foi lavar o seu
carro, formando uma pequena enxurrada que tão rápido quanto o bebê engatinha
chegou até nós trazendo a lama molhada e atrativa. Para explicar aqueles que
não conhecem o cerrado: a terra desse solo é vermelha como uma tinta, e assim
como essa, tinge e se recusa a sair de unhas, vincos de pés rachados e roupas
de crianças. Deixo de molho, bato no tanquinho, passo para a máquina de lavar e
ainda assim fica a marca revelando nossas origens. Exposto os dados, creio que
as mães sentiram uma vibração fria na espinha como eu senti enquanto via a água
escorrendo e o olhar atento e brilhante do pequeno.
Meu filho tem 9 meses, e para Freud ele se encontra na fase oral, onde o prazer vem a partir da boca. Fato comprovadíssimo por ele. Tudo o que não sofri com o mais velho neste aspecto, sofro em dobro com ele. Além do que já trouxe na última crônica sobre a areia da praia ele tem outros episódios interessantes, por exemplo, o dia em que encontrei um fio de cabelo pendurado em sua boca, enojada corri em sua direção e puxei o fio. Amarrado em sua ponta estava a metade do besouro mascada. O restante retirei de sua boca minutos depois ao vê-lo mastigando com o mesmo prazer de quem saboreia um chiclete recém descascado.
Voltando a enxurrada de lama, no instante que a vi descer, olhei lançando raios fulminantes ao pai que lavava o carro, no mesmo tempo que o via engatinhando com o bumbum levantado (não gosta de ralar o joelho no cimento grosso). Já havia aprendido um tempo atrás que precisava me liberar dos pré-conceitos assépticos de mãe e deixa-lo descobrir o mundo a partir de todos os sentidos (não é nada fácil, mas olhei algumas pessoas na piscina e pensei nada como uma ducha e um molho de piscina para ajudar a mãe na limpeza da cria).
Começou tímido a partir do tato, depois foi achando interessante a pintura que fazia na perninha, barriguinha, bracinho, enfim no ápice do prazer levou até à boca e chupou cada dedinho como se fosse chocolate derretido. A mãe extasiada nem repreendia e nem apreciava o momento da descoberta, só tirava fotos em seu celular para mostrar aos demais familiares que não estavam presentes. Depois de um tempo de degustação, levei como já planejado à ducha e à piscina.
Vendo os noticiários, para muitas famílias a experiência não fora tão prazerosa. Não foram os filhos que lambiam a lama, fora ela própria que lambia povoados, pessoas e o que via pela frente. Centenas que já não estavam supervisionados pelo olhar atento das mães permanecem desaparecidos, mergulhados em uma lama dura, que ducha alguma ou piscina é capaz de retirar a marca. Tudo por conta do homem que não sabe se deleitar dos prazeres que o Éden proporciona, e que ainda hoje por sua ambição, continua sendo expulso da terra por ela mesma muitas vezes. Fora retirado do Jardim, para cultivar a sua origem danificada no próprio solo no qual fora feito . A terra que abre a boca para receber de nossas mãos o sangue derramado de nossos irmãos, grita e geme. Enquanto não soubermos mais apreciá-la tal como uma criança, ela não nos dará mais forças e seremos “fugitivos, errantes pelo mundo”.
“Agora amaldiçoado é você pela terra, que abriu a boca para receber da
sua mão o sangue do seu irmão.” Gênesis 4.11
Fui à praia pela primeira vez hoje. Não que eu já não
tivesse ido inúmeras vezes na minha vida. Sim, fui quando criança à praia dos
mineiros: Guarapari, depois de crescida já estive em algumas no litoral
paulista, no nordeste, nas praias cariocas quando vivi um tempo lá. Até em
praias europeias, que ainda não vejo qual a graça, pois mesmo no verão suas
águas são congelantes. Mas hoje tive a sensação de estar pela primeira vez na
praia. Foi mais precisamente em Maranduba, praia do litoral paulista na região
de Ubatuba. Nessa estive diversas vezes, solteira e casada, mas não na situação
que me encontrei hoje.
Ia ainda jovem, e quando digo isso me dá um frio na espinha, pois ao contar os anos percebo que contabilizam mais do que gostaria. Vinha a essa mesma praia, nos mesmos chalés, com quase as mesmas pessoas em seguidos janeiros. Eram épocas onde as brigas de casais se resumiam a partidas de Perfil (um Jogo de tabuleiro de perguntas e respostas criado para desunir gêneros opostos). Quando minha preocupação maior estava em me proteger o suficiente para não bronzear a ponto de descascar, mas voltar com a marquinha do verão, além das tatuagens tribais de Henna. Acordava, comia o pão e café já colocado na mesa, ia para a praia e assim passava o meu dia, me nutrindo de milho e queijo no espeto. A noite visitava a feirinha e comprava o típico anel e brinco de coquinho, (fui resistente ao grão de arroz com o nome). Jantava o que também já estava posto à mesa, lavava meu prato, jogava algumas partidas de UNO, participava de um lual e voltava para a cama a fim de descansar e repetir o mesmo ritual por mais 5 dias.
Dessa vez o entorno estava quase tudo igual, a não ser uma barriguinha a mais, umas peles sem tanta tonicidade e duas crias. Que diferença isso faz! Não a barriga ou a pele, pois isso a não ser a preocupação inútil da mente com o pensar alheio é como a escolha pelas cores das roupas da virada do ano, não faz absolutamente nenhuma diferença, mas sim as duas crias. A começar da tal temida bagagem. Antes era uma mala para um, agora se dividia em quatro, pois ela iria compartilhar o bagageiro com mais um carrinho de bebê, um berço desmontável, baldes, pás e prancha. Organizamos o carro um dia antes, estava impecável com cada milímetro ocupado tal como o jogo Tetris. Mas durou apenas os primeiros quilômetros, depois já tinha fralda, casca de banana, bolacha, brinquedo, cobertas, travesseiros, ops até se encontrava os olhinhos do bebê no meio do entulho. E uma mãe surtada tentando organizar tudo até que se deixou sucumbir pelo caos.
Chegamos! Desce sacolinhas de mercado e malas, corre com a criança apertada para o banheiro, troca a fralda do bebê na recepção, pois o quarto ainda estava sendo limpo, entulha a mala lá dentro e reza por forças para a pior parte: desfazer e organizar tudo nas prateleiras. Enfim tudo organizado e um imenso desejo de deitar na brisa do ar condicionado. Mas não com a criança de 4 anos que quase saltou pela janela do carro na serra quando viu o mar e desde esse momento não cansava de repetir a celebre frase eternizada no filme Shrek “Tá chegando?”. Descemos à praia. “Mamãe, essa água não tá boa. Tem sal e poeira!” Volta pra casa sacode a areia, dá banho em um, briga com o outro molhado em cima da cama. Dá comida pra um, mamadeira pra outro. Pronto! Na verdade “pronto” para o segundo Round, passa pano no chão inutilmente na tentativa de retirar o excesso de areia para o mais novo engatinhar assepticamente. Prepara barraca, caixa de isopor com comidas e bebidas, piscina de plástico, esteira para a sonequinha do bebê! Ufa! O bebê acordou, vamos para a praia! Volta, piscina, janta, banho, cama. Agora sim, uma partida de UNO? Talvez perfil? Cadê o Lual? Alô alguém das antigas aí? Não! Todos na cama embalando as crianças e se guardando para o dia de amanhã.
Mas foi assim minha primeira vez na praia. Depois de armar
barraca, inflar a piscina, ver o pai fazer o trajeto mar/praia 74 vezes com um
baldinho para enchê-la, estender a canga acreditando que o bebê iria ficar
quieto em cima dela sem se sujar, e em menos de dez segundos vê-lo rolando na
areia, colocar protetor nos três meninos da casa (sim, ainda passo o protetor
no marido), sentar por uns três segundos e meios a fim de respirar, finalmente
fomos em direção do mar. O mais velho segurando a prancha que ganhou após
chorar rios de lágrimas até alcançar coração mais maleável do que os dos pais
(do avô é claro) se achava o próprio Cielo, corria seguido pelo pai, logo atrás
a mãe protegendo o bebê com camisas térmicas, protetor fator 50 e chapéu.
Sentamos beira praia. Via de longe o menino vestido de vermelho, e me
assegurava se o pai estava a uma distância segura. Ao mesmo tempo que os olhos
da nuca vigiavam os objetos deixado na praia e calculava a altura da onda que
vinha em relação ao bebê.
Oferecia ao bebê pazinhas, baldinhos e caranguejos ocos de
plástico a fim de vê-lo se divertindo, mas não havia reação, ele olhava fixo
para o horizonte. Percorri o olhar dele para ver se via o que prendia a sua
atenção, mas não via nada de interessante, até que percebi que ele apenas
contemplava em silêncio aquilo que era imenso e que nunca tinha visto antes.
Era um olhar profundo que me convidou à quietude. Ele em seus poucos meses de
vida enxergava melhor do que eu, não precisava de muito para ser cativado, na
verdade pelo contrário, o tudo o prendeu e não o pouco feito em seu plástico
duro e reciclável.
Mas de repente o sinal de alerta soou. O bebê estava colocando meio quilo de areia na boca. Corri em sua direção (apesar de estar a poucos centímetros de distância) com a trilha sonora do filme “Carruagens de fogo”, tirei o que foi possível enquanto ele sorria mostrando a areia incrustada em seus dois únicos dentes. Ele apenas estava fruindo em sua completude aquela vivência. Não era suficiente sentir a textura, lamber o sal que se misturava ao muco, e ser lambido pela água fria trazida pela maré. Era necessário sentir o gosto, provar, e a mãe estúpida com medo de alguns micro-organismos estava o privando da experiência. Era preciso viver aquilo novamente, não achar que por conta da idade, nada mais poderia me surpreender. Senti desejo de me juntar a ele em sua refeição, mas temi. Tirei o excesso para que não descobrissem a relapsa mãe que sou, mas deixei sobrar alguns grãos para que ainda saboreasse.
No fim da tarde voltei, só que agora sem meus brinquedos de plástico. Voltei com eles meus maiores tesouros, e apenas um carrinho por conta do excesso de peso do pequeno, mais duas garrafinhas de água, para retirar o excesso do sal. Queria acompanha-lo. Já não era mais sua primeira vez, mas ainda estava absorto com a força do mar, o som e suas variadas texturas. Deixei mais uma vez que eles em suas tenras idade me guiassem na vivência, e ali no entardecer, sem sobrecargas, sem muita proteção e segurança, fui pela primeira vez à praia.
“Porque a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar”. (Habacuque 2.14)
Passei meu ano novo nos ares. Literalmente no ar, e não em um lugar paradisíaco que me deixaria leve e com a sensação de flutuar. Passei no avião. Não é a primeira vez, já tinha tido a experiência na virada de 2014 para 2015. O motivo era os valores mais baixos das passagens, talvez porque quase não há procura por essas datas festivas (pensava eu até entrar e ver a quantidade de pessoas que tinham tido a mesma ideia). Nada de muito alvoroço. O voo atrasou e junto com as desculpas do piloto veio as felicitações. Pedimos um champanhe francês em taças de plástico e brindamos. Tomei um gole para não atrair azar e logo entreguei o restante ao marido, e voltei ao meu suco de maça. Para a minha alegria o mais velho assistia vídeo na telinha do avião e o mais novo dormia no berço que os anjos bem vestidos de azul e lencinho vermelho armaram para ele. Seria uma viagem tranquila, sem fogos de artifício, abraços e beijos melados. Estávamos ali como diz a criança, “Nossa família!!” e mais 5 malas. Não tínhamos muito que comemorar, apesar do tempo na Espanha ter sido maravilhoso, o que nos aguardava nos deixava um pouco apreensíveis.
Tínhamos passado por alguns dias de tensão. Moramos em uma comunidade num sítio fora da cidade com mais 40 e poucas pessoas, a maioria estava fora, alguns como nós na Europa, outros no sertão do Piauí fazendo o que chamamos “Natal na Estrada”. Deixamos todo ano nossas árvores de natal montadas, e saímos toda a comunidade na semana natalina para armarmos na rua com andarilhos e famílias outras árvores e uma ceia. É um tempo de festa onde a história no natal é encenada, cantada e compartilhada nas mesas. E enquanto vivíamos essa história longe de nossas raízes, Nossas habitações terrenas foram invadidas, mais precisamente três casas, entre elas a nossa.
Nossos amigos tentaram nos preservar da notícia, mas de qualquer forma ela nos alcançou. Havia sido uma noite tensa, tal como os filmes de Denzel Washington. Tentamos enquanto ainda morávamos em nossa casa na Europa desarraigar as raízes e desligar dos acontecidos. Nada podíamos fazer, estávamos há um oceano do lar.
Mas enfim o dia de abrir a porta que já não era a mesma, pois a outra tinha sido arrombada, chegou. Sabíamos de alguns pertences que eram visíveis e que foram levados, mas aquilo que não tem tanto valor econômico e que por isso não está tão à mostra de quem não vive dentro das paredes ainda precisaríamos sentir a falta. Levaram lembranças de um HD externo que me fizeram sentir nua diante do vilão, como o chamou meu sobrinho de 3 anos: as fotos de casamentos que o marido até hoje (depois de 12 anos) ainda não tinha colocado em um álbum, juntamente com as fotos das crianças, que para minha graça a avó armazena todas e mais um pouco em seu precioso computador. Levaram a gaita da pobre criança que desde que pisara no Brasil e vira o avô pedia para tocar (esse havia prometido ensiná-lo). Levaram mais algumas coisas que foram deixadas no rastro do mato que os bravos homens da casa conseguiram resgatar na fuga dos homens. E levaram a paz de quem amava sair na varanda a noite e ver o céu estrelado do Cerrado com suas cores indescritíveis.
Nas horas que permaneci sentada no pequeno banco do nosso salão de festa de virada lotado ao som de roncos do casal atrás separados por um bebê que se notava pelo sono já ter se acostumado com a melodia de ninar de sua família, fiquei lutando contra minha mente que sondava involuntariamente o que mais me poderia fazer falta caso o vilão tivesse levado. Percebi que tinha vivido dois meses de minha vida, com tudo o que estava nos ares, e que nada havia me faltado, pelo contrário voltava com uma mala a mais de roupas doadas para os meninos de marcas que nem com muito suor no Brasil conseguiria pagar. Mas essas estavam alguns metros de mim no bagageiro, porém bem próximo estava tudo o que eu mais gostaria que estivesse, meus três principais pertences que já dormiam, cada um na posição permitida pelas acomodações. Mas nem esses eram necessários para que eu sobrevivesse. E se também os tivesse perdido? Veio como uma sombra a pergunta já respondida há alguns séculos para Jó.
Atravessamos a porta agora de chapa fundida e de tranca com
chave tetra. Já estava quase tudo em seu lugar, o registro ficou apenas nas
fotos. Tentaram nos aliviar organizando tudo, mas a insegurança já rondava
querendo encontrar espaço nas emoções. Já tínhamos três opções de televisão
para substituir a que fora levada, melhores do que a anterior. Disseram que era
porque éramos pessoas queridas, e isso valeu mais do que as polegadas a mais.
Estávamos ali, nós quatro e algumas malas abertas e
espalhadas pela casa. Fizemos o que podíamos para guardar a mente criativa do
mais velho, mas uma pergunta me mostrou que assim como nós ninguém conseguira
preservá-lo: “Mamãe, onde está o ladrão?” Em sua casa meu filho.” “Mas as
pessoas lá não estão com medo dele?” “Não meu filho, ele mora com a sua
família, e ela o ama, como nós nos amamos.” Respondi ele tentando me convencer
das próprias palavras. Saiu e foi juntamente com o irmão brincar com seus
brinquedos.
Lembrei de “nossa família” reunida ao redor da mesa, era dia de natal e tudo tinha acontecido na véspera. Agradecemos por estarmos juntos e fizemos uma prece àqueles meninos que visitaram nossa casa, para que também Ele com sua graça os visitassem onde quer que estivessem. A data comemorativa me relembrava a todo instante o que realmente era de valor. Aquela criança a mais de 2000 anos atrás nasceu entre nada e animais juntamente com sua família. Meses ou anos mais tarde (não sabemos ao certo), ganhou presentes de muito valor de sábios e mestres, que poderiam sustentar ele e sua família na fuga do vilão que tentara retirar sua vida. Apesar dos presentes já recebidos, não requeremos “nossos” pertences de volta, éramos e estávamos todos pertencentes àquele instante.
Minha mente voltou à janelinha pequena do avião, e ouvi a voz de Humberto Gessinger cantando ao pé do meu ouvido: “Minhas raízes estão no ar, minha casa é qualquer lugar, se depender de mim eu vou até o fim.”
“As raposas têm suas
tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde
repousar a cabeça”. (Mateus 8.20)