Primeira vez na praia

Fui à praia pela primeira vez hoje. Não que eu já não tivesse ido inúmeras vezes na minha vida. Sim, fui quando criança à praia dos mineiros: Guarapari, depois de crescida já estive em algumas no litoral paulista, no nordeste, nas praias cariocas quando vivi um tempo lá. Até em praias europeias, que ainda não vejo qual a graça, pois mesmo no verão suas águas são congelantes. Mas hoje tive a sensação de estar pela primeira vez na praia. Foi mais precisamente em Maranduba, praia do litoral paulista na região de Ubatuba. Nessa estive diversas vezes, solteira e casada, mas não na situação que me encontrei hoje.

Ia ainda jovem, e quando digo isso me dá um frio na espinha, pois ao contar os anos percebo que contabilizam mais do que gostaria. Vinha a essa mesma praia, nos mesmos chalés, com quase as mesmas pessoas em seguidos janeiros. Eram épocas onde as brigas de casais se resumiam a partidas de Perfil (um Jogo de tabuleiro de perguntas e respostas criado para desunir gêneros opostos). Quando minha preocupação maior estava em me proteger o suficiente para não bronzear a ponto de descascar, mas voltar com a marquinha do verão, além das tatuagens tribais de Henna. Acordava, comia o pão e café já colocado na mesa, ia para a praia e assim passava o meu dia, me nutrindo de milho e queijo no espeto. A noite visitava a feirinha e comprava o típico anel e brinco de coquinho, (fui resistente ao grão de arroz com o nome). Jantava o que também já estava posto à mesa, lavava meu prato, jogava algumas partidas de UNO, participava de um lual e voltava para a cama a fim de descansar e repetir o mesmo ritual por mais 5 dias.

Dessa vez o entorno estava quase tudo igual, a não ser uma barriguinha a mais, umas peles sem tanta tonicidade e duas crias. Que diferença isso faz! Não a barriga ou a pele, pois isso a não ser a preocupação inútil da mente com o pensar alheio é como a escolha pelas cores das roupas da virada do ano, não faz absolutamente nenhuma diferença, mas sim as duas crias. A começar da tal temida bagagem. Antes era uma mala para um, agora se dividia em quatro, pois ela iria compartilhar o bagageiro com mais um carrinho de bebê, um berço desmontável, baldes, pás e prancha. Organizamos o carro um dia antes, estava impecável com cada milímetro ocupado tal como o jogo Tetris. Mas durou apenas os primeiros quilômetros, depois já tinha fralda, casca de banana, bolacha, brinquedo, cobertas, travesseiros, ops até se encontrava os olhinhos do bebê no meio do entulho. E uma mãe surtada tentando organizar tudo até que se deixou sucumbir pelo caos.

Chegamos! Desce sacolinhas de mercado e malas, corre com a criança apertada para o banheiro, troca a fralda do bebê na recepção, pois o quarto ainda estava sendo limpo, entulha a mala lá dentro e reza por forças para a pior parte: desfazer e organizar tudo nas prateleiras. Enfim tudo organizado e um imenso desejo de deitar na brisa do ar condicionado. Mas não com a criança de 4 anos que quase saltou pela janela do carro na serra quando viu o mar e desde esse momento não cansava de repetir a celebre frase eternizada no filme Shrek “Tá chegando?”.  Descemos à praia. “Mamãe, essa água não tá boa. Tem sal e poeira!” Volta pra casa sacode a areia, dá banho em um, briga com o outro molhado em cima da cama. Dá comida pra um, mamadeira pra outro. Pronto! Na verdade “pronto” para o segundo Round, passa pano no chão inutilmente na tentativa de retirar o excesso de areia para o mais novo engatinhar assepticamente. Prepara barraca, caixa de isopor com comidas e bebidas, piscina de plástico, esteira para a sonequinha do bebê! Ufa! O bebê acordou, vamos para a praia! Volta, piscina, janta, banho, cama. Agora sim, uma partida de UNO? Talvez perfil? Cadê o Lual? Alô alguém das antigas aí? Não! Todos na cama embalando as crianças e se guardando para o dia de amanhã.

Mas foi assim minha primeira vez na praia. Depois de armar barraca, inflar a piscina, ver o pai fazer o trajeto mar/praia 74 vezes com um baldinho para enchê-la, estender a canga acreditando que o bebê iria ficar quieto em cima dela sem se sujar, e em menos de dez segundos vê-lo rolando na areia, colocar protetor nos três meninos da casa (sim, ainda passo o protetor no marido), sentar por uns três segundos e meios a fim de respirar, finalmente fomos em direção do mar. O mais velho segurando a prancha que ganhou após chorar rios de lágrimas até alcançar coração mais maleável do que os dos pais (do avô é claro) se achava o próprio Cielo, corria seguido pelo pai, logo atrás a mãe protegendo o bebê com camisas térmicas, protetor fator 50 e chapéu. Sentamos beira praia. Via de longe o menino vestido de vermelho, e me assegurava se o pai estava a uma distância segura. Ao mesmo tempo que os olhos da nuca vigiavam os objetos deixado na praia e calculava a altura da onda que vinha em relação ao bebê.

Oferecia ao bebê pazinhas, baldinhos e caranguejos ocos de plástico a fim de vê-lo se divertindo, mas não havia reação, ele olhava fixo para o horizonte. Percorri o olhar dele para ver se via o que prendia a sua atenção, mas não via nada de interessante, até que percebi que ele apenas contemplava em silêncio aquilo que era imenso e que nunca tinha visto antes. Era um olhar profundo que me convidou à quietude. Ele em seus poucos meses de vida enxergava melhor do que eu, não precisava de muito para ser cativado, na verdade pelo contrário, o tudo o prendeu e não o pouco feito em seu plástico duro e reciclável.

Mas de repente o sinal de alerta soou. O bebê estava colocando meio quilo de areia na boca. Corri em sua direção (apesar de estar a poucos centímetros de distância) com a trilha sonora do filme “Carruagens de fogo”, tirei o que foi possível enquanto ele sorria mostrando a areia incrustada em seus dois únicos dentes. Ele apenas estava fruindo em sua completude aquela vivência. Não era suficiente sentir a textura, lamber o sal que se misturava ao muco, e ser lambido pela água fria trazida pela maré. Era necessário sentir o gosto, provar, e a mãe estúpida com medo de alguns micro-organismos estava o privando da experiência. Era preciso viver aquilo novamente, não achar que por conta da idade, nada mais poderia me surpreender. Senti desejo de me juntar a ele em sua refeição, mas temi. Tirei o excesso para que não descobrissem a relapsa mãe que sou, mas deixei sobrar alguns grãos para que ainda saboreasse.

No fim da tarde voltei, só que agora sem meus brinquedos de plástico. Voltei com eles meus maiores tesouros, e apenas um carrinho por conta do excesso de peso do pequeno, mais duas garrafinhas de água, para retirar o excesso do sal. Queria acompanha-lo. Já não era mais sua primeira vez, mas ainda estava absorto com a força do mar, o som e suas variadas texturas. Deixei mais uma vez que eles em suas tenras idade me guiassem na vivência, e ali no entardecer, sem sobrecargas, sem muita proteção e segurança, fui pela primeira vez à praia.

“Porque a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar”. (Habacuque 2.14)

Um comentário em “Primeira vez na praia

  1. De todas as cronicas que a acompanhei esta foi a que mais me acertou em cheio.
    Quantas vezes queremos oferecer ou entreter de coisas para Deus. Só nos basta ceiar uma boa areia e olhar o horizonte. 😆

    Seus escritos enchem minha alma. Não pare.

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