A Lama

Dois dias antes da tragédia que assumiria as principais notícias no lugar do filho do presidente, estava eu tentando passar as incontáveis horas do dia que as férias proporcionam aos pais, com meus dois pequenos na comunidade onde vivo.

O mais velho já tinha se perdido com as outras crianças entre as folhas mortas, úmidas do orvalho, e o mais novo estava sob supervisão do olhar atento da mãe. Não tinha nada de muito perigo, a não ser uma pequena erosão no solo de cimento com um punhado de terra umedecida. Logo quis ele colocar a mão. Dei uma bronca (como diz os mineiros) e contrariando o bebê lavei em seguida a mão e o rostinho que ficaram um pouco sujo. Tudo estava em ordem e em segurança. Até a chegada de um homem, que nesse momento nem pareceu pai, ou pelo menos se esqueceu do que é ser um e assim perdeu a solidariedade com a mãe que desfrutava um pouco de paz conversando com outras mães.

Um pouco acima de nós, pegou uma mangueira e foi lavar o seu carro, formando uma pequena enxurrada que tão rápido quanto o bebê engatinha chegou até nós trazendo a lama molhada e atrativa. Para explicar aqueles que não conhecem o cerrado: a terra desse solo é vermelha como uma tinta, e assim como essa, tinge e se recusa a sair de unhas, vincos de pés rachados e roupas de crianças. Deixo de molho, bato no tanquinho, passo para a máquina de lavar e ainda assim fica a marca revelando nossas origens. Exposto os dados, creio que as mães sentiram uma vibração fria na espinha como eu senti enquanto via a água escorrendo e o olhar atento e brilhante do pequeno.

Meu filho tem 9 meses, e para Freud ele se encontra na fase oral, onde o prazer vem a partir da boca. Fato comprovadíssimo por ele. Tudo o que não sofri com o mais velho neste aspecto, sofro em dobro com ele. Além do que já trouxe na última crônica sobre a areia da praia ele tem outros episódios interessantes, por exemplo, o dia em que encontrei um fio de cabelo pendurado em sua boca, enojada corri em sua direção e puxei o fio. Amarrado em sua ponta estava a metade do besouro mascada. O restante retirei de sua boca minutos depois ao vê-lo mastigando com o mesmo prazer de quem saboreia um chiclete recém descascado.

Voltando a enxurrada de lama, no instante que a vi descer, olhei lançando raios fulminantes ao pai que lavava o carro, no mesmo tempo que o via engatinhando com o bumbum levantado (não gosta de ralar o joelho no cimento grosso). Já havia aprendido um tempo atrás que precisava me liberar dos pré-conceitos assépticos de mãe e deixa-lo descobrir o mundo a partir de todos os sentidos (não é nada fácil, mas olhei algumas pessoas na piscina e pensei nada como uma ducha e um molho de piscina para ajudar a mãe na limpeza da cria).

Começou tímido a partir do tato, depois foi achando interessante a pintura que fazia na perninha, barriguinha, bracinho, enfim no ápice do prazer levou até à boca e chupou cada dedinho como se fosse chocolate derretido. A mãe extasiada nem repreendia e nem apreciava o momento da descoberta, só tirava fotos em seu celular para mostrar aos demais familiares que não estavam presentes. Depois de um tempo de degustação, levei como já planejado à ducha e à piscina.

Vendo os noticiários, para muitas famílias a experiência não fora tão prazerosa. Não foram os filhos que lambiam a lama, fora ela própria que lambia povoados, pessoas e o que via pela frente. Centenas que já não estavam supervisionados pelo olhar atento das mães permanecem desaparecidos, mergulhados em uma lama dura, que ducha alguma ou piscina é capaz de retirar a marca. Tudo por conta do homem que não sabe se deleitar dos prazeres que o Éden proporciona, e que ainda hoje por sua ambição, continua sendo expulso da terra por ela mesma muitas vezes. Fora retirado do Jardim, para cultivar a sua origem danificada no próprio solo no qual fora feito . A terra que abre a boca para receber de nossas mãos o sangue derramado de nossos irmãos, grita e geme. Enquanto não soubermos mais apreciá-la tal como uma criança, ela não nos dará mais forças e seremos “fugitivos, errantes pelo mundo”.

“Agora amaldiçoado é você pela terra, que abriu a boca para receber da sua mão o sangue do seu irmão.” Gênesis 4.11

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