Novo ano nos ares

Passei meu ano novo nos ares. Literalmente no ar, e não em um lugar paradisíaco que me deixaria leve e com a sensação de flutuar. Passei no avião. Não é a primeira vez, já tinha tido a experiência na virada de 2014 para 2015. O motivo era os valores mais baixos das passagens, talvez porque quase não há procura por essas datas festivas (pensava eu até entrar e ver a quantidade de pessoas que tinham tido a mesma ideia). Nada de muito alvoroço. O voo atrasou e junto com as desculpas do piloto veio as felicitações. Pedimos um champanhe francês em taças de plástico e brindamos. Tomei um gole para não atrair azar e logo entreguei o restante ao marido, e voltei ao meu suco de maça. Para a minha alegria o mais velho assistia vídeo na telinha do avião e o mais novo dormia no berço que os anjos bem vestidos de azul e lencinho vermelho armaram para ele. Seria uma viagem tranquila, sem fogos de artifício, abraços e beijos melados. Estávamos ali como diz a criança, “Nossa família!!”  e mais 5 malas. Não tínhamos muito que comemorar, apesar do tempo na Espanha ter sido maravilhoso, o que nos aguardava nos deixava um pouco apreensíveis.

Tínhamos passado por alguns dias de tensão. Moramos em uma comunidade num sítio fora da cidade com mais 40 e poucas pessoas, a maioria estava fora, alguns como nós na Europa, outros no sertão do Piauí fazendo o que chamamos “Natal na Estrada”. Deixamos todo ano nossas árvores de natal montadas, e saímos toda a comunidade na semana natalina para armarmos na rua com andarilhos e famílias outras árvores e uma ceia. É um tempo de festa onde a história no natal é encenada, cantada e compartilhada nas mesas. E enquanto vivíamos essa história longe de nossas raízes, Nossas habitações terrenas foram invadidas, mais precisamente três casas, entre elas a nossa.

Nossos amigos tentaram nos preservar da notícia, mas de qualquer forma ela nos alcançou. Havia sido uma noite tensa, tal como os filmes de Denzel Washington. Tentamos enquanto ainda morávamos em nossa casa na Europa desarraigar as raízes e desligar dos acontecidos. Nada podíamos fazer, estávamos há um oceano do lar.

Mas enfim o dia de abrir a porta que já não era a mesma, pois a outra tinha sido arrombada, chegou. Sabíamos de alguns pertences que eram visíveis e que foram levados, mas aquilo que não tem tanto valor econômico e que por isso não está tão à mostra de quem não vive dentro das paredes ainda precisaríamos sentir a falta. Levaram lembranças de um HD externo que me fizeram sentir nua diante do vilão, como o chamou meu sobrinho de 3 anos: as fotos de casamentos que o marido até hoje (depois de 12 anos) ainda não tinha colocado em um álbum, juntamente com as fotos das crianças, que para minha graça a avó armazena todas e mais um pouco em seu precioso computador. Levaram a gaita da pobre criança que desde que pisara no Brasil e vira o avô pedia para tocar (esse havia prometido ensiná-lo). Levaram mais algumas coisas que foram deixadas no rastro do mato que os bravos homens da casa conseguiram resgatar na fuga dos homens. E levaram a paz de quem amava sair na varanda a noite e ver o céu estrelado do Cerrado com suas cores indescritíveis.

Nas horas que permaneci sentada no pequeno banco do nosso salão de festa de virada lotado ao som de roncos do casal atrás separados por um bebê que se notava pelo sono já ter se acostumado com a melodia de ninar de sua família, fiquei lutando contra minha mente que sondava involuntariamente o que mais me poderia fazer falta caso o vilão tivesse levado. Percebi que tinha vivido dois meses de minha vida, com tudo o que estava nos ares, e que nada havia me faltado, pelo contrário voltava com uma mala a mais de roupas doadas para os meninos de marcas que nem com muito suor no Brasil conseguiria pagar. Mas essas estavam alguns metros de mim no bagageiro, porém bem próximo estava tudo o que eu mais gostaria que estivesse, meus três principais pertences que já dormiam, cada um na posição permitida pelas acomodações. Mas nem esses eram necessários para que eu sobrevivesse. E se também os tivesse perdido? Veio como uma sombra a pergunta já respondida há alguns séculos para Jó.

Atravessamos a porta agora de chapa fundida e de tranca com chave tetra. Já estava quase tudo em seu lugar, o registro ficou apenas nas fotos. Tentaram nos aliviar organizando tudo, mas a insegurança já rondava querendo encontrar espaço nas emoções. Já tínhamos três opções de televisão para substituir a que fora levada, melhores do que a anterior. Disseram que era porque éramos pessoas queridas, e isso valeu mais do que as polegadas a mais. 

Estávamos ali, nós quatro e algumas malas abertas e espalhadas pela casa. Fizemos o que podíamos para guardar a mente criativa do mais velho, mas uma pergunta me mostrou que assim como nós ninguém conseguira preservá-lo: “Mamãe, onde está o ladrão?” Em sua casa meu filho.” “Mas as pessoas lá não estão com medo dele?” “Não meu filho, ele mora com a sua família, e ela o ama, como nós nos amamos.” Respondi ele tentando me convencer das próprias palavras. Saiu e foi juntamente com o irmão brincar com seus brinquedos.

Lembrei de “nossa família” reunida ao redor da mesa, era dia de natal e tudo tinha acontecido na véspera. Agradecemos por estarmos juntos e fizemos uma prece àqueles meninos que visitaram nossa casa, para que também Ele com sua graça os visitassem onde quer que estivessem. A data comemorativa me relembrava a todo instante o que realmente era de valor. Aquela criança a mais de 2000 anos atrás nasceu entre nada e animais juntamente com sua família. Meses ou anos mais tarde (não sabemos ao certo), ganhou presentes de muito valor de sábios e mestres, que poderiam sustentar ele e sua família na fuga do vilão que tentara retirar sua vida. Apesar dos presentes já recebidos, não requeremos “nossos” pertences de volta, éramos e estávamos todos pertencentes àquele instante.

Minha mente voltou à janelinha pequena do avião, e ouvi a voz de Humberto Gessinger cantando ao pé do meu ouvido: “Minhas raízes estão no ar, minha casa é qualquer lugar, se depender de mim eu vou até o fim.”

“As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”. (Mateus 8.20)

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