Astromélia

Ganhei uma flor. Mais especificamente uma Alstroemeria hybrida, ou popularmente conhecida como Astromélia. É uma planta florífera, rizomatosa e herbácea. Como não faço ideia do que isso significa, posso dizer que é linda e que me confundi com o lírio. Tentar descrevê-la a partir da linguagem, me afastaria da sua essência, ou da experiência que ela me proporcionou, então caso queira saber como ela é, pode digitar no site de busca e verá várias imagens, só vou te dar a dica que a minha é de tom laranja, e rosa, ou amarelo, sei la! Não importa. Ganhei uma flor!

Foi em um sábado quando acontecia um churrasco, que no Brasil e também em Israel no Antigo testamento, é um momento sagrado de comunhão e sacrifício. Foi colocada em uma taça de chopp, um contraste intrigante, já que são tão delicadas em um copo um pouco grosseiro, não importa ficou interessante e útil, já que em minha improvisada casa não teria onde colocá-las. Achei um presente de uma sensibilidade e uma inutilidade incrível. Por que alguém se importaria em me dar uma flor que morreria tão breve quanto eu iria embora? Disse me que era para dar um tom de lar à casa improvisada.

Coloquei no centro da mesma mesa com o forro horripilante azul, agora a decoração estava completa. No lugar de um vaso branco, com flores coloridas e artificiais que em meu primeiro dia com o menino, fiz uma pintura da natureza morta digna de estar no museu do Louvre. No mesmo dia, joguei o desenho fora e retirei o vaso de lá colocando em um canto escondido. Já faz um tempo que evito tais decorações. Prefiro o que morre, ou para ser menos fatalista, o que tem vida.

Aqui na Espanha, tem um costume bem interessante que me deixou uma vez embaraçada (não no sentido espanhol). Eles fazem uma “festa de aniversário” de um ano da morte de um ente querido. Com comes, bebes e flores na casa improvisada de quem tem vida e de quem se foi. Exatamente no dia que chegamos Dona Mutcha tinha preparado um banquete com aroma de bacalhau para a festa de aniversário do seu marido. E talvez por ter a menor taxa de natalidade entre os países, ou por sua idade avançada, todo fim de semana a senhorinha colocava sua melhor roupa e saía avisando que ia a um aniversário. Em um desses dias, esquecida do motivo da “comemoração”, perguntei animada à Dona que retornava, se a festa tinha sido boa, ela com uma cara de espanto que fez minha fisionomia animada cair no mesmo instante, pediu para que repetisse a pergunta pois não tinha entendido. Enfim, talvez eles que estejam certo afinal no Livro diz que é melhor estar onde tem luto do que em banquetes. Aprendemos com o que morre, pois esse tem vida.

Voltando à flor com seus dias contados, fiquei olhando pra ela, até que de alguma forma ela me olhasse. Sabia que tinha algo para me dizer, só precisava esperar o tempo que ela quisesse. Mas enquanto não fiz silencio, ela se recusou a falar.

Passado cinco dias, um terço de sua vida, li que deveria cortar seus caules para que durasse mais, mas sua beleza já não estava como no primeiro dia, porém ela resolveu se comunicar. Tinha acabado de fazer o bebê dormir. O mais velho tinha ido para o trabalho com o pai. Este teve compaixão da mãe, que não dormira a noite por conta de uns dentes que estavam rasgando a gengiva do mais novo. Continuava fazendo aquilo que fui fazer, nada tão relevante, apenas ficar com as crianças enquanto o pai trabalhava. Com medo de arriscar a dirigir em um trânsito onde as pessoas dirigem com cautela, respeitam a velocidade e param para o pedestre passar, não fiz nada muito diferente. Alguns dias ia ao parquinho, outros ia à outro parquinho mais distante, ou a cafeteria com um parquinho, nada além disso, nada tão relevante. A não ser cuidar para que o bebê que ainda não sentava não caísse e batesse a cabeça, até que enfim ele se firmou. Limpar bem o chão, já que agora em sua fase oral resolveu se arrastar, até que conseguiu engatinhar e quase caiu de cabeça na tentativa de descer o degrau. Ah! Teve o dia em que escalou e ficou em pé sozinho no berço. Juntou suas primeiras sílabas, e emocionada achei que já estava me chamando. Precocemente aprendeu a fazer suas necessidades no vaso, não apetecia a ele mais liberá-las nas fraldas, então toda vez que fazia uma força visível corria para o banheiro (eu que corria segurando ele é claro, não foi tão precoce assim). Bateu palmas, brincou com o irmão de esconder, e enfim começaram as noites mal dormidas por conta dos dentes. Mas nada de relevante aconteceu nesse curto intervalo de vida.

Voltando à minha conversa com aquilo que estava caminhando para a morte a “Astro”, (me permitiu que a chamasse assim, era mais intimo), falou-me sobre encontros que passam e na minha pressa, não me permito ser encontrada. Lembrou-me dessa mesma noite mal dormida, que a todo custo tentava forçar a criança, a encontrar o sono que tinha ido embora engatinhando. Enquanto não aquietei, me silenciei, abri para o encontro, olhei em seus pequeninos olhos com lágrimas, e disse que podia descansar que agora a alma da mamãe estava presente, ele não adormeceu.

 Mas não parou no calor da calefação da minha casa, também me lembrou, do refeitório com suas paredes de vidro, onde me assentava junto com as crianças, o chefe de cozinha, seus dois ajudantes e o outro pai, meu companheiro das manhãs. Comia e aguardava os demais que saiam da aula, em um dia eufóricos e em outros com os olhos inchados.

Mas seria confortável se parasse neste ambiente, afinal eram alguns mais chegados que irmãos, jogávamos UNO, ríamos, comíamos tapas, falávamos besteiras censuradas para menores. Direcionou-me para fora dos muros baixos e seguros, ao parque àqueles dois encontros com o avô e sua netinha. (tenho que deixar uma nota que ele me achou deveras jovem para ser mãe de dois meninos) e tantos outros avós que ficam com seus netos enquanto seus pais correm sem contar seus dias. À padaria ao lado da minha casa em uma manhã, que escutei e entendi em parte o galego da jovem senhora que se contradizia dizendo o quanto estava cansada com tanto trabalho e orgulhosa pelos seus três filhos estarem dando duro para alcançarem sucesso.

E o que dizer dos pequenos e profundos encontros com a senhora locadora da casa onde fiquei e que mora no andar de cima. Uma senhora que parece não ter sono , muito cedo e muito tarde se ouve o som dos tamancos de madeira no teto. Me lembro do dia em que me levou com as crianças para ver sua horta e galinheiro atravessando a rua. “Está muito mal cuidada”, repetia ela a todo instante, apesar de não precisar me avisar, já que se via com o mato alto, os dejetos dos animais e as caixas de ovos espalhadas. O motivo era a falta do seu marido que morrera há um ano. Achei interessante, já que me contara que durante seus 50 e poucos anos juntos, mal permaneciam debaixo do mesmo teto, pois era eletricista e trabalhava em navios em alto mar. Criara seus três filhos bravamente mariscando pela orla. Seu marido um mês em terra, oito no mar. Aos poucos isso foi mudando dois em terra, quatro no mar. Até que veio a doença que em pouco tempo o tirou dela. Hoje chora a falta, os vincos de sua pele em uma tarde de encontro viraram margens de suas lágrimas. Disse que quando estava, era presente, mas insistia em repetir a falta.

Encontros que geram falta.

Lembrou-me também do dia que fiz um caminho diferente. O mais velho reclamava de dor na perna, enquanto o mais novo balbuciava no carrinho. Resolvi atalhar, e passei pela ponte de pedra, embaixo corria o rio, e recordei do filosofo Heráclito. O rio não é diferente apenas porque a água não é mais a mesma, mas porque mudamos. Por mais que me encontre novamente com a água que parece a mesma, nunca será o mesmo momento.

Pouco mais de 50 dias, e o que mudou em tão pouco tempo, nada de tão relevante?

Espanha agora tem estado: Galícia. Tem cidade: Vigo. Tem Pueblo: Moaña, mais especificamente rua das Fragas em Meira. Tem o aroma de bacalhau das mãos enrugadas, porém firmes. Tem melodia de harpa misturada com o som do mar que fizeram algumas lágrimas escorrer a falta, poucos dias antes da partida.

Hoje não tem churrasco, mas tem oferta, teve sacrifícios, mas o mais importante, tiveram encontros. Afinal, antes do primeiro sacrifício para vestir o nu, ele se Encontrava com, na viração do dia.

E assim Astromélia finalmente finaliza seu discurso dizendo o que mais me impressionou a respeito de si. “Deram me muitas características para tentarem me significar, mas aqueles que não tem compromisso em me sistematizar, e só envolver me de significante disse que represento devoção, relação duradoura, saudade agradecimento”.

“Ouvindo o homem e sua mulher os passos do Senhor Deus que andava pelo jardim quando soprava a brisa do dia…” (Gênesis 3.8)

Bolo de cenoura

Recebi o legado de cozinheira da minha avó materna. Claro que não veio completo, pois além, do bombocado, bolo de cenoura, ovo frito e gelatina, ela sabe cozinhar um frango ao molho com as devidas combinações mineiras como ninguém, além da cocada que ajudava no sustento de casa. Mas até onde me lembro, essas são suas únicas especialidades culinárias e não lhe apetecia tanto assim estar na cozinha. De uma forma surpreendente ou até mesmo de sobrevivência, o legado não passou pelas filhas, pulou uma geração e chegou até mim. Então quem me conhece sabe bem que faço um bolo de cenoura como poucos. Tudo bem que é só jogar todos os ingredientes no liquidificador e depois despejar na forma, mas saiba que tem seu perigo de falha, pelo menos eu já cometi algumas. Enfim, essa é minha especialidade e a carrego com todo o peso de glória, ainda mais depois que casei com um psicólogo que diz que cozinhar é sua terapia, quem sou eu, para privá-lo de tal benefício? Fico com a louça.

Porém algumas vezes gosto de arriscar. Como em um dia que marquei com alguns amigos de tomarmos um café em casa e quis fazer um bolo integral, quase light. Os ingredientes eram ricos em ambos sentidos: português e espanhol. Castanhas, aveia, chocolate meio amargo e para completar chocolate alpino em pó para a cobertura salpicado com alguns morangos. Não tinha erro! A não ser pelo fato que meu óleo havia acabado e faltava uma colher apenas. Pensei comigo mesma, o que uma colher pode fazer de diferença. Lembrei-me que tinha um óleo onde havia fritado umas batatas apenas uma vez e o coloquei, senti um aroma de eucalipto e vi que o havia armazenado em uma garrafa de desinfetante, mas nada poderia acontecer de ruim. Esperei silenciosa os primeiros a comerem. Como ninguém havia se expressado, em paz fui deliciar meu primeiro pedaço. Esqueci-me que eram todos atores da companhia que faço parte, e te asseguro que são bons atores, ou grandes amigos tentando me encorajar a continuar no esforço de aprender a cozinhar. Esperei todos irem embora e todo o restante do bolo foi descartado.

Mas quero te contar do dia em que meu bolo de cenoura, cruzou o oceano e alcançou paladares requintados da pastelería (confeitaria) espanhola.

Em um dos frios dias da Galícia, estava eu em minha casa rodeada de mármores gélidos na parede, pensando no que poderia fazer de comida para mandar a uma noite de pijama com algumas crianças incluindo a minha, promovida por uma alma caridosa. Não demorou muito para escolher entre as muitas opções o que faria: um bolo de cenoura. “Não tem erro!” Pensei inocente. A não ser que cozinhei as cenouras com medo de quebrar o Mixer e esqueci-me de deixar esfriá-las cozinhando o ovo antes da hora, e pelo fato que a energia caiu três vezes e o forno era elétrico. Lá estava ele, uma mistura das duas receitas da avó: Bombocado e bolo de cenoura. Não pude enviar outra coisa, afinal meu filho havia gasto suas horas livres à tarde para me ajudar, seria muita decepção para a criança. E apesar das muitas preces feitas pelos dois cozinheiros, não houve salvação. Mandei assim mesmo, acreditando que as crianças poderiam estar com fome suficiente para não notar. Engano meu, a pequena travessa voltou pela metade.

Mas ainda restavam alguns dias para comprovar que de fato sabia fazer a receita. E logo surgiu a oportunidade: A noite das mulheres! Seria uma prova de fogo eu sabia, mas eu estaria pronta para enfrentá-la. A cozinha se tornou meu campo de batalha. Acho que poucos dias como esse clamei tanto a Deus. Estava fervorosa, era certo que Ele não me abandonaria nessa prova. Fiz tudo com cuidado, esperei a cenoura esfriar, untei bem a forma, aqueci na temperatura certa o forno, desliguei todos os demais aparelhos eletrônicos para não correr o risco da energia cair novamente. Tudo certo! A não ser por um pequeno detalhe. Aqui na Espanha existem azeites que tem a mesma embalagem que o óleo de girassol, e na minha tamanha confiança não percebi, quando vi já havia despejado a meia xícara dita na receita em todos os demais ingredientes, e aquele cheiro delicado da oliveira recendeu. Quis me jogar na parede e derreter como no melodrama, ou em novelas mexicanas, mas me contive, recolhi as lágrimas e fui ao celular pesquisar receitas de bolo com azeite, e para minha surpresa, descobri que na Espanha se usa tal ingrediente a fim de obter uma massa mais macia. Agora era só vigiar e orar para minha receita espanhola de bolo de cenoura ficar pronta. Foram 40 minutos de intensa agonia, mas por fim lá estava ele, crescendo belo e apetitoso. Fiz a típica calda de chocolate, sentei, olhei e vi que era bom!

“A noite cai, o frio desce” (sim sou da geração Sandy e Junior e não me julguem), e enfim o tão esperado momento onde os pais ficariam com as crias e as mães livres poderiam se reunir com outras mulheres a fim de conversarem o que quisessem depois de falarem tudo acerca de seus filhos. Chegamos à devida casa, eu e minha forma enrolada elegantemente no papel filme. Coloquei-a com os demais alimentos: torta de massa folhada, pão de queijo, guacamole, suchis e sachimis, todas receitas caseiras (homens picam uns salaminhos e queijo, compram batatas e já está, mas mulheres realmente gostam de complicar). Voltando ao bolo, sua aparência estava suficiente bonita para algumas pessoas arriscarem saborear mesmo sabendo da origem, porém o gosto ainda não havia provado. Pela graça ele não havia sido alterado, e apesar de não combinar com o momento, ele estava comestível, para ser sincera até gostoso.

No frio da madrugada, às 23:00, voltamos por conta da criança de uma mãe que clamava peito. Apesar de muito agradável o ambiente, confesso que fiquei feliz por retornar, ainda poderiam me sobrar algumas horas antes do clamor do meu. Todas as luzes apagadas, o pai havia feito um bom trabalho. Deitei relaxada pelo efeito do suquinho de maça e das risadas.

No dia seguinte bateram na porta, era dona Mutcha, fazendo sua ronda matutina. Trazia consigo em um cesto ovos e kiwis orgânicos de sua pequena horta do outro lado da rua. Ela sempre passa pela manhã recolhendo as roupas que a jovem senhora inexperiente deixa estendida na umidade do relento. Como uma boa mineira, procuro algo para oferecer de volta e encontro o restante dele em cima da pia. Embalo-o em um pequeno prato com papel filme novamente e ofereço corajosamente à senhora que me agradece. Pensei em dizer para não se animar muito, mas dado ao sucesso da noite anterior me contive.

Algumas horas mais tarde, quando estava na calçada realizando a dura tarefa de colocar as crianças no carro em suas respectivas cadeirinhas, a filha de dona Mutcha, aparece junto à sua mãe elogiando o biscoito. Pensei que ela estava oferecendo um biscoito de chocolate ao meu filho e prontamente aos prantos da criança recusei falando que não precisava se incomodar. Mas ela insistia dizendo o quanto estava bom. Até que minha amiga que me acompanhava disse que biscoito era bolo. Extasiada parei para ouvi-la, fechando a porta do carro para cobrir o choro da criança. Disse-me que estava muy esquisito, quis concordar, mas lembrei do significado em espanhol da palavra e apenas agradeci. Pediu para que eu a ensinasse e à sua mãe também. O que não contei ainda, é que ao lado de minha casa tem uma pastelería y panadería (como dito anteriormente, confeitaria e padaria) pequena e delicada com doces, roscas, e compotas de geleias na vitrine. Era de Mari, filha de dona Muctha, que após ter recebido da mãe todas as receitas de tartas, biscoitos e empanadas espanholas, fizera um curso de padeira e confeiteira em Santiago. Instantaneamente veio em minha memória um acontecido com o meu filho:

Compramos algumas horas de uma Ludoteca (brinquedoteca). Era um ambiente para os pais que necessitavam deixar as crianças após a escola. Têm muitos brinquedos e atividades programadas, o menino ansiava o dia de ir, chamava de sua escolinha, porém esperávamos dias mais caóticos para leva-lo, pois tínhamos comprado apenas 10 horas. Após uma dessas horas, fomos busca-lo e uma das monitoras contou animada que ele havia ensinado capoeira aos demais. Parei para tentar lembrar onde ele havia aprendido ou até visto tal arte e só me lembrei de seu primo um ano mais novo que às vezes ensaiava alguns golpes perto dele. Ela sem perceber minha inquietação, pegou um pedaço de pau e começou fazer alguns movimentos com sons na boca, perguntando se estava correto. Olhei para a criança ao lado, e sem querer contradizê-la, disse à monitora que era uma arte complexa e que poderia talvez se apresentar daquela forma. Encorajada com a lembrança, pensei comigo: Se meu filho de quatro anos pode ser um mestre de capoeira na Europa, porque eu não poderia ser uma chefe de pratos típicos, afinal quem poderia contradizer uma nativa. Aquela era uma receita de um bolo brasileiro. Aceitei o desafio!

Chegado o dia, só quem estaria era a mãe, era uma confeitaria muito requisitada e a filha estava sobrecarregada de trabalho das festas de fim de ano. Seria um momento único e incrível, afinal um espanhol te convidar para entrar em sua casa, tem que ter bastante intimidade e empatia por você. Mas eu não apenas iria entrar, utilizaria também a cozinha para ensinar uma matriarca com seus mais de 70 anos a fazer um biscoito brasileiro. Preparei todos os ingredientes, me certificando que eram os certos. Peguei o azeite ao invés do óleo, e subi à casa acima da minha. Ela com o seu vestido avental xadrez (típica roupa para fazer faxina) me recebeu mostrando os aposentos. Era um grande apartamento, impecável em sua organização, cheirando a lustra-móveis. A presenteei com uma foto dela e dos meninos tirada em uma das primeiras semanas. Emocionada colocou o porta retrato junto com outros em cima da mesa do comedor (sala de jantar) que enfaticamente repetia, ficava cheio no passado com os 15 integrantes da família. Mostrou-me algumas fotos de pessoas que também haviam se hospedado ali e apontava alegre e saudosista seu marido e netas. Contive as lágrimas, afinal estava ali apenas para ensinar a receita.

Começamos a preparar o local, e ela foi tirando do armário, balança, batedeira e alguns outros utensílios que nunca tinha visto. Tentei explicar que só precisaria de um liquidificador e uma tigela, mas ela estava ali ávida para ser minha aluna. Estava muito nervosa e tentei relaxar. No fim das contas já estávamos rindo com minha falta de jeito e dona Mutcha já havia pegado a rédea. Preparava chantilly para enfeitar o bolo, não adiantaria explicar que não combinava, estava animada demais com a companhia para escutar qualquer coisa. Ela quis desenformar o bolo, coisa que nunca faço, é muito mais seguro mantê-lo na forma. É claro que grudou no fundo e que quebrou algumas partes. Mas nada daquilo importava, ríamos muito. Enquanto estava assando o bolo de cenoura, me ensinou à fazer uma Bica de Santiago. Um bolo típico da Galícia, era simples, mas ela não o tratava assim, minunciosamente seguia os detalhes da receita. No final da tarde estavam ali dois bolos. Um com o chantilly derretido por cima da calda quente e outro suculento com sua casca de açúcar e canela queimada.

Duas receitas típicas de dois continentes distantes que haviam reunidos em uma tarde duas mulheres de geração e nacionalidade distinta. Dividimos os bolos e voltei para casa. O que importava não eram as receitas impecáveis, já que apesar de todo o meu esforço talvez tenha sido o pior resultado. Ela não estava ali apenas para aprender, afinal tinha muito o que ensinar e o fez, me emprestando uma grande enciclopédia de doces da Galícia. Queria estar, rir e se preciso chorar. E pude responder não com o melhor do que faço, com minha performance, ou minha arte cênica, mas com aquilo que mais me custa, com minha pior vulnerabilidade e fragilidade. Dei meu pouco e recebi o muito.

“Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei…”  (Mateus 25.21)

Casa de baño

Interessante é a vida de quem se deixa ser levado pelo Vento. Em um dia toma banho de bacia e caneca e em outro, numa banheira de hotel no interior de Portugal.

Antes de te contar essa história, deixa-me primeiro te contextualizar. Aqui no pueblo onde estou na Espanha, na maioria das casas a água não é aquecida via eletricidade e sim a gás. Têm se um pequeno maquinário que conectado por uns fios aquece a água, parecido com a miniatura daquele que era o pesadelo de Macaulay Culkin no porão da casa na qual fora esquecido. Em minha moradia fica instalado na parede acima da pia.

Acontece que nesse fim de semana mais especificamente no sábado, quando o homem da casa saiu de viagem e eu fiquei só, com os dois meninos, ele resolveu estragar. Chamei a senhorinha do andar de cima (a dona da casa) que prontamente ligou para o filho mecânico. Em sua ciesta ele veio até a casa e constatou o triste fato que o problema só seria resolvido na segunda-feira quando as lojas voltariam a funcionar e poderíamos encontrar a peça necessária. Completamente transtornada com a situação, a senhorinha começou em seu confuso espanhol misturado com galego a insistir com o filho, que dando suas últimas palavras no telefone com o especialista a interrompeu bruscamente confirmando que nada poderia ser feito.

Tentei tranquilizá-la dizendo que esquentaria água na chaleira e tomaria banho de caneca, afinal não seria a primeira vez a fazê-lo. Indignada disse que não permitiria, e que em sua casa havia muitas casas de baño. Como que em um filme, passou em minha cabeça a cena minha, saindo de um relaxante banho de dois minutos e meio e encontrando a casa revirada, com Dona Mutcha (ainda não tive coragem de perguntar seu exato nome, mas é esse som que soa ao meu ouvido) amordaçada e amarrada em uma cadeira por dois indiozinhos (o mais novo claro, apenas como coadjuvante) correndo ao redor e dando urros de guerra. Dei um sorriso e disse que não seria necessário, mas que com certeza a procuraria se fosse preciso. É óbvio que isso jamais aconteceria, falei apenas para despistá-la.

Chegada a hora do banho, enchi com água e aqueci três das maiores panelas. Logo constatei que não seria necessária tamanha quantidade. Dei o devido banho no mais velho que amou o banho de balde, e em seguida no bebê. Deixei como sempre ele brincar por um instante e tirei o do balde com a reação de quem seria levado à forca. Vesti-os e liguei o DVD de sempre, que se fosse disco de vinil era certo que já estaria furado, e fui me banhar. Decidi usar a mesma água do bebê para precaver de ficar completamente sem água aquecida. Não estava mais em uma temperatura tão agradável, mas suficiente quente para o tempo que uma mãe leva para se limpar.

No outro dia repetimos o ritual de purificação depois de novamente despistarmos a senhorinha. Segunda-feira tudo voltou à normalidade, enfim havia água quente saindo pelo cano, e o homem de volta a casa com uma revigorante notícia: Tínhamos ganhado uma noite em um hotel quatro estrelas!

Chegado o dia da viagem, entramos todos no carro. Dado o pouco tempo que tive para preparar a bagagem com dois meninos no meu pé, sou inocentada da quantidade de sacolas e mochilas desnecessárias para uma viagem de uma noite. Fomos a um SPA em uma cidade do interior de Portugal. Um presente dado por amigos sensíveis ao clamor silencioso de uma mãe, esposa, missionária, artista e equilibrista de profissão e nesses dias principalmente da vida.

Chegado ao quarto liberei as duas crianças, como se libera um animal enjaulado, e elas foram destruir, quer dizer explorar o quarto do hotel/SPA/quatro estrelas. E eu fui ao que sempre me interessa: o banheiro! E lá estava ela, branca como a neve rodeada por azulejos brancos e pretos, só esperando ser cheia com água quente, sais de banho, óleos essenciais e a minha pessoa segurando um bom livro, uma taça de vinho (que apesar de não gostar fica bem na cena) e velas iluminando o ambiente. Ok! Sendo mais realista, esperando ser cheia com água morna, brinquedos de borracha, eu e mais duas crianças espalhando água por todo banheiro. Mas enfim, ela estava ali e eu a aproveitaria ainda assim, mesmo que um pouco diferente da expectativa. Afinal, tinha passado o fim de semana tomando banho de caneca da água morna que sobrara do banho do bebê. Novamente compartilharíamos a água, só que agora em um novo recipiente.

O que me fez matutar (como diz nós mineiros), sobre o ditado: “Não jogue o bebê fora junto com a água do banho”. Diz que tem sua origem em épocas remotas da Idade Média na Inglaterra, mas minha memória de infância me faz acreditar que o fator originário do ditado também acontecera há poucos anos em minha família paterna. Buscando fontes confiáveis parece ser um fato dúbio, porém permito nessa crônica, me recorrer ao inconsciente da criança que sempre é muito mais rico e interessante do que a realidade do adulto.

Lembro-me de ouvir a história que em uma fazenda do interior de Minas Gerais, vivia meu pai, seus três irmãos e seus pais. No momento de se banharem, em uma única tigela, se obedecia à hierarquia: patriarca, mãe e em seguida os filhos em ordem decrescente. Muitas vezes o último a se banhar era o bebê. Fato que nunca aconteceria na atual geração onde se banham os bebês em álcool em gel. Se é verdade o ocorrido eu não sei (Talvez até saiba, mas não quero estragar a história), porém que foi a partir deste costume em épocas remotas que surgiu o ditado, isso posso afirmar.

Acontece que quando a água já estava turva devido à sujeira, corria se o risco do bebê ser lançado fora, junto com ela. Era necessário ter cuidado para não se desfazer de algo de valor, devido à sujeira ou contaminação do seu entorno.

 Não tenho objetivo de me atentar aos detalhes higiênicos e insalubres da situação, mas andando pelas ruas de Melgaça, a pequena cidade onde se situa o SPA, contemplando a sua beleza histórica e o quanto ainda seus muros e muralhas de pedra carregam vida com seus presépios vivos e músicas natalinas tocadas em alto-falantes, verifico um triste fato: o quanto perdemos em não nos deixar sermos contaminados com a água de nossos ancestrais, nossa história. Queremos tanto uma vida asséptica, independente e pós-moderna, que esquecemos o quanto Dona Mutcha tem a ensinar com suas histórias. Tenho pressa em descobrir quem sou e a ser essa pessoa com tanta certeza a fim de me realizar, que lanço fora a terra deixada na água da bacia por meus pais, meus avós, meus ancestrais, e que me levarão à bandeira do meu clã, ao meu legado de vida.

O melhor que posso oferecer aos meus filhos, não são os banhos estéreis de sujeira e de vida que os prepararão para o mercado, mas são as manhãs no trator ou se escondendo do avô que dorme no meio da brincadeira, balançando no banco de madeira do jardim ou comendo o bolo de cenoura da avó. É deixar rastros do que veio antes, para todos os momentos que precisarem voltar e se encontrar. É por isso que me encanto todas as manhãs aqui nos parquinhos, vendo aqueles que poderiam estar sentados e descansando, com seus cabelos brancos e passos lentos, empurrando carrinhos e gritando: “Cuidado cariño!”. Esses nunca deixarão de banhar os seus com suas histórias, sendo elas reais ou não.

Agora se o fato da bacia aconteceu ou não na fazenda do interior de Minas, deixarei que os que vierem após mim, descubram.

“…eles acampavam junto às suas bandeiras e depois partiam, cada um com o seu clã e com a sua família.” (Números 2.2)

A quina do quebra-cabeça

Comprei um quebra-cabeça! É para os dias chuvosos aqui nesse pequeno vilarejo de Moaña na Galícia. Não foi caro, encontrei numa lojinha em frente à praia que visito quase todos os dias. Possivelmente porque é a única que meus Euros me permite entrar.

500 peças! Acho que fui ousada, ainda mais pelo meu objetivo de entreter uma criança de 4 anos. Mas foi o único cuja imagem me atraiu. Uma rua estreita, com faixadas de muro de pedras, vasinhos de flores miúdas vermelhas e roxas. E um muro descascado com ramos de folhas grandes e vermelhas. Parece que dessa forma, mesmo com a chuva estou caminhando pelas ruas daqui.

Sai debaixo de chuva obviamente. Com o frio cortando o rosto, quando o pai das crianças chegou do trabalho, logo após a ciesta. Precisava sair! Respirar ares longe da calefação. Mas mãe pode até sair de perto, mas eles nunca saem de dentro

Reuni minha fortuna impressa no metal e entrei na loja. Primeiro comprei uma meia calça preta para me sentir uma mulher livre e independente e em seguida corri para a sessão de brinquedos para enfim me realizar.

Pensei: ainda me restam 41 dias, com possibilidade de chuva pela manhã e no fim da tarde. 1000 peças seriam demais, 500 peças talvez suficientes.

Paguei os 4,50 euros tentando entender o espanhol com sotaque oriental. Fechei o agasalho, agarrei a caixa ao peito, já que minhas moedas não davam para comprar o saco plástico e tentei segurar os passos para aproveitar os minutos restante da solitude. Apesar de que por dentro estava ansiosa para derramar aquelas 500 peças na mesa de madeira forrada com um forro de plástico grosseiro, azul, com flores e frutas muito mal pintadas que a senhorinha que nos alugou a casa advertiu severamente para usá-lo como proteção. Apesar de arruinar a decoração romântica de nossa temporária casa, combinava perfeitamente com o improvisado tapete de edredom de penas de ganso com brinquedos e mordedores espalhados no meio da sala.

Bati na porta branca na casa de pedras e quem abriu a porta como sempre foi ele, com seus 4 anos de puro entusiasmo e energia, que com certeza roubou de mim  no momento do parto.

Mostrei para ele, que quis abrir no exato momento. Expliquei como se explica a uma parede e ela te compreende, que tinha que primeiro alimentar o mais novo. Foram momentos longos de tortura, só não consegui decifrar ao certo quem era a vítima da vez.

Enfim, chegou o momento. Dadas as devidas recomendações e instruções, sentei com o meu roupão cinza e uma xícara de chá de menta, suspirei animada e acreditei iludida que teria um lindo e prazeroso momento materno. Não! Não foi como na propaganda da Margarina Qualy. Em poucos segundos lá estava ele espalhando as pequenas peças no chão de azulejo estampado, desmontando os pequenos trios que bravamente eu conseguira montar, tentando encaixar a flor vermelha com ramos verdes no meio de um céu azul sem a mínima lógica e em seguida me perguntando: “Acertei mamãe?”.

Hoje, vendo de fora, creio que no mínimo a cena deveria estar caótica e cômica, pelo menos era o que se via no sorriso de canto estampado na cara do pai que embalava o mais novo.

Chegado ao nível mais drástico, me revesti de toda minha autoridade instituída de mãe, e disse que era hora de criança dormir. Aos trancos e barrancos, não muito diferente dos outros dias, todos os menores de idade estavam deitados.

Enfim, adultos sozinhos depois de um dia exausto fazem o que? Não! Não nessa noite. Eu tinha uma importante missão a cumprir. Separar e encaixar todas as peças de canto antes do amanhecer. Para minha angústia, faltou uma quina, uma tão fundamental quina. Quase a pedra angular de um quebra-cabeça. Tinha certeza que o pestinha de 4 anos em sua euforia, acreditando ser o Silvio Santos diante das cartas do programa “Porta da esperança”, havia perdido.

Eu havia revirado as peças umas quatro vezes quando frustrada fui para a cama, armei o alarme para um horário que era certo que os meninos ainda estariam dormindo, fechei os olhos e tentei acalmar a alma até que as peças sumissem da mente. O alarme não tocou! Levantei assustada, o pai já não estava na cama. Quando saí pela porta do quarto que dá direto à sala onde fica a mesa de madeira, coberta com o forro desenhado por crianças, lá estava ele, ajoelhado na cadeira, com suas mãozinhas ágeis e desastradas, quase deitando no que eu já havia montado. Quis advertir, só que lembrei do propósito do jogo, e com uma voz um pouco engasgada dei um “bom dia”, enquanto meus olhos rastreavam o estrago que havia sido feito.

Para minha surpresa, lá estava ela, a quina, encaixada no exato lugar, cheguei mais perto incrédula, olhei para os olhinhos pequenos ainda com remelas e perguntei:“Onde você achou essa pecinha?”, ele respondeu apontando de maneira inocente: “Na caixa mamãe. Estamos conseguindo né?” “Sim estamos!”, respondi ainda extasiada.

“Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado.” (Lucas 10.21)

Preparando a bagagem.

ATO 1:

Parei em uma cafeteria para buscar um tempo a fim de organizar as palavras que saltitam em minha mente. Quis escolher bem um lugar que me trouxesse um pouco de paz, silêncio e quietude próprios da vida de um adulto sem crianças ao redor. O pai me dera algumas horas nessa manhã de sábado para um período de solitude. Não deu certo! Acabei na mesma cafeteria das manhãs chuvosas onde me refugio com as duas crianças e que possui um parquinho coberto, cujas crianças com sua energia acumulada e seus pais exauridos vêm para um tempo de respiração. Talvez tenha sido uma escolha do meu inconsciente, já que minha mente e criatividade já foram adestradas para ambientes com tal atmosfera.

Não quis arriscar no pedido e já me arrependo. Me garanti no “minidesayuno”que vem com um pequeno café, um minicroissante um zumito de naranja (suquinho de laranja). Porém quando vejo chegar o pedido do senhor à minha frente, que desde que chegou me encara (de certo por conta da minha roupa descombinada ou da garota que vem sozinha a uma cafeteria barulhenta pra escrever), vejo que deveria ter optado pela surpresa. Na Espanha tem algo parecido com o Kinder ovo para adultos, você pede uma bebida e vem de brinde algo para comer. Pode ser uma torta, salgadinhos, jujubas ou no caso desse senhor, um bolo parecido com o de fubá do Brasil com gosto de saudades. Mas enfim, minha escolha já foi feita,e agora tenho que me contentar com o gosto de segurança que as moedas da carteira me proporcionaram.

Não resisti e pedi mais uma Holandesa, uma grande bolacha com um açúcar de confeiteiro em cima que sempre divido pelas manhãs e que hoje poderei saborear sozinha. Acho que não será tão saborosa, parece que quando dividimos tem mais sabor, talvez pelo fato de estarmos compartilhando com o outro, ou sendo mais sincera porque temos um pouco menos e queremos aproveitar cada pedaço, não estamos enfastiados, como diz o provérbio quanto ao mel em grande quantidade que perde seu real sabor. Pausa para uma bocada. Metade da holandesa no prato. Vou pedir para embalar.

Enfim, deixa te contar como cheguei até aqui, mas antes quero voltar a quase um mês atrás onde tudo começou (acho que terei que visitar mais cafeterias para terminar a crônica). Espero que não se canse ao lê-la, te dou permissão para pausas de petiscadas, ainda mais se for mãe, leve o tempo que precisar.

Quero compartilhar algo que nos últimos quatro anos tem se tornado meu maior desafio: Preparar malas! Só de pronunciar as palavras começo a sentir calafrios e a suar. Desde nova fui ensinada pela minha mãe a preparar minha própria bagagem. Tinha uma bolsa de nylon vinho e já aos nove anos eu que a arrumava. Mas nada como ter o primeiro filho e fazer uma viagem ao exterior em um clima nunca experimentado como o inverno da Suíça, para elevar ao nível máximo de dificuldade, o jogo. Quatro grandes malas de 32 Kg cravados, um mochilão de 10 e três mochilas, quase tudo que a companhia aérea permitia. Não me julgue! Já fui punida o suficiente.

Depois de quatro anos estamos um pouco mais avançados na arte, a começar pelo fato que terminamos de arrumá-las na manhã anterior à viagem e não poucos minutos antes do embarque, com a possibilidade de um jantar a dois, proporcionado pelos avós que já sofriam coma falta. Dois filhos, quatro malas com menos de 23 kg, duas mochilas e uma mala de 10. Ainda não atingimos o patamar, mas não vamos desprezar os pequenos feitos.

Cortando meus devaneios, a fim de chegar ao assunto principal: O conteúdo da mala, talvez agora eu consiga fixar a mente no que importa, se é mesmo que estou certa do que seja.

Sabia dessa vez da estação que me aguardava e tentei não errar tanto. Desde a viagem para a Suíça, temos uma mala vinho onde preservamos roupas que com as estações do Brasil, dificilmente serão aproveitadas, mas que certamente estariam presentes em futuras bagagens. Ela fica guardada em meu ateliê também conhecido como antiga lavanderia, depósito ou quarto da bagunça (sobre esse assunto falamos em outra crônica). Estava garantida, afinal as roupas tinham sido adquiridas na própria Europa, não tinha erro nem de temperatura, nem de moda. Mas o que não esperava era o que viria a seguir, alguns imprevistos aconteceram durante a jornada.

Minha calça preta com tiras de couro na caneleira, própria para ocasiões especiais, sem o porquê havia rompido de forma grotesca na região dos glúteos. Minhas blusas de gola rolê e meu suéter preto para qualquer ocasião foram esquecidos no frio de Curitiba. E o que dizer dos sapatos. Tinha um tênis perfeito de cano longo, quente e estiloso. É de uso de boxeadoras, mas havia adquirido para um espetáculo de circo que fizemos para uma turnê também na Europa. Agora com certeza o usaria e me sentiria uma jovial europeia. Mas em uma dada noite em uma comunidade, chamada festa da generosidade, onde sensibilizávamos nosso coração consumista, para viver o dar que é melhor do que receber, senti, pensei e confirmei que ele seria repassado para outra pessoa. Com o pesar de uma criança de quatro anos que voluntariamente dá seu super-homem de brinquedo e depois se arrepende (fato acontecido na mesma festa), entreguei o tênis, certa que seria da melhor forma suprida em minhas necessidades. Mas acredito que me esqueci de avisar para Aquele que falou sobre o dar que é melhor, o que seria o “melhor”. Talvez Ele tenha se esquecido que após as duas gravidezes, meu pé cresceu e agora não uso mais 36 e sim 37, e que 35 já me serviu na idade adulta, mas não ficava tão confortável. E também que gosto das botas de couro, bem úteis por sinal, no inverno europeu, mas a fivela dourada e a estampa de onça mesmo que muito discreta, apesar de lindas e presente na moda Europeia, não combinam com meu estilo, seja qual for ele. Talvez realmente tenha passado desapercebido, ou quem sabe Ele quis pregar alguma peça, ou sendo mais religiosa, me ensinar alguma coisa. Ao menos me restara uma blusa que com certeza não me permitiria passar frio. E um vestido grosso de linho para uma ocasião especial.

 Logo na segunda semana na Espanha, tivemos uma festa de ações de graça, e lá se foi minha carta na manga. Havia guardado para a formatura que aconteceria, mas me disseram que deveríamos ir todos “muy guapos”,para a festa. Vocês não imaginam como tão poucas palavras me doeram. Meu cabelo caindo muito por conta do clima e da água, as olheiras aumentando, pois o bebê ainda não tinha entrado no fuso. E sem a escolinha para o mais velho, mal tinha tempo de tomar um banho, só imagina o estado da unha. A única coisa boa é que com o inverno não precisava me preocupar com a depilação.

Reuni toda a minha coragem, me esforçando em preservar o espírito da noite de graças e me vesti como que para uma apresentação. Era meu melhor figurino, e minha melhor maquiagem, era certo que ajudaria na atuação, apesar dos olhos vermelhos e inchados como que saídos de uma tragédia de Shakespeare. A estreia foi melhor do que eu planejara. Voltei para a casa um pouco mais leve, mas sem nenhum recurso vestual para as demais festas de fim de ano que seguiriam.

ATO 2:

Passaram se alguns dias até essa manhã nublada. Sai de casa sozinha vendo bem se não estava esquecendo nada além do que ficara propositalmente: um carrinho com seu respectivo bebê, bolsa com mamadeira,fralda, lanchinho, papinha, troca de roupa, uma criança, guarda-chuva, capa de chuva, brinquedo, etc… Não! Estava tudo aqui: celular, água e carteira, mais algumas graves recomendações de economia do marido. Fui em direção à feira da praia, à procura de uma blusa mais quente e um gorro para o bebê.  No caminho para a feira, que fica na orla em direção ao porto, fui lamentando e apontando todos os meus argumentos para Aquele que nem se lembrava mais do número do meu sapato, porque eu não merecia andar mais elegante. Porque precisava me esforçar para combinar meu jeans desbotado, com minha blusa europeia e uma bota com detalhes de onça. Sentia-me injustiçada e com certeza com a razão.

Passei pelo mesmo caminho de todos os dias, ao lado do lago com os patos, da lona de circo que estava sendo desmontada, do casal de velhinhos sentado no banco de madeira olhando o mar transparente, cheio de algas e cardumes de peixes, das árvores com suas folhas de inverno avermelhadas formando um tapete na grama verde, das flores vermelhas dos arbustos que resistiam ao inverno rigoroso, das crianças com seus avós no parquinho. Das duas árvores peladas que de forma impressionante seus galhos se encontram como se estivessem dando as mãos em uma simbiose sobrenatural.

Inesperadamente parei, e junto a mim, parece que o vento e os ruídos também silenciaram. Era a voz dEle interrompendo minhas lamúrias, como uma brisa suave que penetra a ponto de dividir juntas e medulas, mente e alma. Me fez uma proposta: “Você pode atravessar a rua rumo às vitrines, pode seguir reto pela feira, ou pode ir pela orla para ver como visto minha criação, porém a escolha é só sua”. Com a alma petrificada e gélida como a pele permaneci no calçadão da feira, não consegui ser tão ousada, não estava ainda preparada para ver sua nova coleção de inverno. Continuei o caminho, mas meus olhos já não estavam nas roupas penduradas de linho e suas promoções registradas em Euro. Passei reto sem gastar nenhum níquel de minha carteira, a não ser para comprar um caderno  e uma caneta na papelaria do caminho.

Cheguei à cafeteria, tirei meu casaco comprado em Lisboa e fiquei exposta com minha blusa roxa e meu jeans fleg surrado, tampando as fivelas douradas. A combinação já não me incomodava tanto, mesmo com o senhor que me analisava. Pedi meu minidesayuno e passei a escrever. Pensei que talvez o convite feito anos atrás, não era apenas para olhar os lírios e os pássaros, observar como são tão bem vestidos e que assim Ele também me vestiria mais bela que as esposas de Salomão. O apelo era pra olhar, simplesmente contemplar, tirar os olhos das vitrines ou modelos que me rodeavam, e observar as árvores nuas, mas coberta com a beleza da estação.

Hoje estou na cozinha de casa, não fui a nenhuma outra cafeteria. Não é um lugar com design rústico ou Vintage, porém precisava de um ambiente acolhedor, seguro, comum. Com um forro de pequenas e delicadas flores azuis, uma xícara de cappuccino e a metade de uma Holandesa que decidi dessa vez não compartilhar, não pela dor que dar às vezes gera, mas porque seu gosto não estava tão doce como das outras vezes. Tem sabor de correção, de vergonha, ingratidão, mas também é revestida com a graça de um açúcar delicadamente polvilhado. Certa que estarei ainda mais preparada para arrumar as próximas bagagens, e cada dia mais elas serão reduzidas, afinal o que mesmo levarei na última viagem?

Meu pedido hoje é apenas um café, quero aguardar para ser surpreendida com o acompanhamento.

“Não levem bolsa, nem saco de viagem, nem sandálias…” (Lucas 10.4) 

Abrindo as gavetas

Já algum tempo, trago em minhas bagagens na volta para a casa, alguns textos. A partir de um desejo de eternizar a memória, escrevo. Mas só neste ano de 2018, já perdi meu computador e sumi o meu celular, além de ser péssima com tecnologia e andar nas “nuvens”, ao invés de enviar para a nuvem.

Então resolvi fazer esse blog. Tentaram me desencorajar, disseram que ninguém mais lê textos grandes e o ideal seria vídeo ou imagens com pequenos textos. Bem, eu leio e se você está lendo até agora essa bobagem de desabafo, acredito que ou você é um grande amigo e precisa me dar um retorno sobre o que escrevi, ou você como eu, ainda prefere imaginar a partir das palavras do que ter tudo já representado nas imagens.

Enfim, no mínimo terei dois seguidores, minha mãe e meu marido, e meus textos de alguma forma salvos em um lugar seguro, ao menos até eu perder a senha.

Mas se você de vez em quando quiser também ler algo que te faça acreditar não ser a única ou único a cometer  besteiras, abro aqui minhas gavetas e te apresento minha vulnerabilidade sem maquiagens. Geralmente nossas melhores roupas é que nos acompanham nas viagens, mas ultimamente não tenho tido muitas opções, então vai as que tem mesmo.