
“Ser ou não ser? É melhor viver.” Foi assim que começou minha manhã, com minha cria de 6 anos recitando tais palavras eternizadas por Hamlet, de forma expressiva tal como a mãe em seu ofício, talvez até mais convincente. Elogiei a sua performance como aprendi a fazer antes de qualquer correção, e em seguida o corrigi, afirmando que na verdade se tratava de uma problematização: “Ser ou não ser, eis a questão.” Ele acreditando que aos seis anos já estava apto a responder a pergunta que perdura à séculos, argumentou contra Shakespeare: “Mas eu prefiro ‘viver’.” Dei de ombros, quem sabe daqui uns anos o apresentaria melhor aos clássicos e explicaria que estes, nós não mudamos, apenas aceitamos. Por enquanto me conformaria com seu desempenho cênico. Mas de alguma forma, mesmo em seu erro fatal, que perturbaria mais uma vez o espectro do pai de Hamlet, a declamação da criança não saiu de minha cabeça, também de certa forma, perturbando minha alma que ainda lutava para viver.
Dias antes, estava lendo outro clássico, cujas letras e vírgulas também, sacramentalmente não devem ser alteradas, quando me deparei com mais uma história de conflitos da família real. Nessa, o rei permanecera vivo, porém em aviso para pôr em ordem a sua casa, pois o seu dia havia chegado. O autor do clássico, que diferente de Shakespeare, ainda vive, e que talvez seja o único a me acompanhar sempre na leitura de seu livro, disse ao pé do meu ouvido que deveria fazer o mesmo. Petrificada, em estado de transe e rodeada por temores de uma pandemia que mata, sem aviso prévio, fiquei em silêncio, ou pelo menos tentei acalmar a alma que já pensava nos filhos de fora, e no que gerava. Quis fazer o mesmo que o rei da história: clamar por mais alguns anos, e por tamanha insistência, ganhar mais 15, mas esperei que o autor concluísse sua fala. Tal como nas tragédias que, para a trama se desenrolar, é necessário um conflito a se desenlaçar durante os dois primeiros atos e ser solucionado no terceiro, não recebi de imediato à compreensão da tragédia apresentada à mim. Mas como os fantasmas perturbaram Hamlet, fui atormentada nos dias que se sucederam.
Hoje chorei. A alma que até então, tentava manter mascarada dentro de mim, como em uma quarentena, berrou como criança frustrada que não consegue conter a birra. Chorei tal como as máscaras da tragédia, que expressam sem som. Tive medo! A notícia chegou mais perto, agora com nomes. Confesso que temi que alcançasse sobrenomes, fui egoísta, quis aninhar, isolar, proteger os meus, e me lembrei da fala: “Eu prefiro viver!”. Nossa essência rejeita a morte, porque para tal enredo não fomos criados. Mas estou de aviso prévio. Não sei se falo da morte da “matéria”, se for, faço dessa escrita uma carta de despedida. Mas mesmo se não for, contém o mesmo propósito.
Há um mês aproximadamente, minha casa está em ordenação, adequação de mais um membro que em breve chegará. São paredes pintadas, guarda-roupa comprado, cama deslocada, bebê realocado. Tudo planejado para um nascimento, porém o aviso dado é sobre a morte. Morte de um antigo estilo de vida, morte para uma rotina passada, morte para alguns projetos, morte para uma forma de ser e existir. A cada filho gerado, a alma da que gera é salva por passar pela morte da semente que renasce em vida. Um novo ritmo de tempo, uma nova configuração. E se o impulso for para continuar filosofando e questionando o sentido do antigo “ser ou não”, a alma não se aquietará. Podemos passar por esse tempo caótico que ao mundo foi imposto, como Shakespeare nos sugere em sua história, responder de forma obcecada aos apelos da tragédia como Hamlet, desejando manter e vingar a ordem anterior, ou atender ao outro roteirista em seu aviso de colocar em uma nova ordem, aquilo que nos é cabível. Por isso choro, respiro, questiono “porque está abatida ó minh’alma”, sem julgá-la, mas fico com a pureza da resposta da criança: “Eu prefiro viver!”.
Diana Magalhães,
Escrito em 23 de junho de 2020
