Senta aqui!

Foto por Gentilly Costa

Estava em minhas atividades cotidianas, quando escutei mais uma vez de meu filho mais novo sentado no sofá assistindo a um desenho, a temida frase: “Senta aqui!” Fora a primeira expressa por minhas duas crias ainda bem novinhas. Talvez pela necessidade que tinham de tal ordem ser cumprida, eles a apreenderam de forma surpreendente rápida. O pedido ou até mesmo o clamor da criança, me trouxe à memória uma tarefa imposta a mim de alguns poucos meses atrás: fazer com que o mais velho permanecesse sentado por alguns breves minutos, e se concentrasse em alguma atividade proposta.

Tudo começou com um bilhetinho de agenda que pensava demorar mais alguns anos para receber. Iniciava com um suspeito “Mãe” e pedia encarecidamente que eu tivesse uma conversa com meu pequeno, pois ele não estava conseguindo ficar sentado durante a aula. Eu já sabia do conteúdo, pois no medo e na ânsia que descobrisse antes dele me contar, o menino foi obrigado no dia anterior, a me preparar para um possível diálogo com sua professora. Perguntei a ele o que o impedia de obedecer à ordem da mestra, e ele acreditando ser o próprio Dom Quixote, disse-me que não desistiria de ajudar. Intrigada com sua fala, pedi para que me detalhasse melhor o motivo de sua decisão. Ele me explicou em lágrimas a situação de que alguns de seus colegas estavam tendo dificuldades com suas tarefas, e que lhe pediam ajuda, e ele tão generoso levantava de sua carteira e ia complacente ajudá-los mesmo sem a permissão da “tia”. Achei nobre de sua parte, e não quis desmotivar sua pura intenção, mas expliquei que naquele momento haveria uma pessoa mais apropriada para resolver a situação, a própria professora. Depois de argumentações, ele aceitou o fato arrependido, ou parcialmente arrependido. No outro dia respondi ao bilhete e disse que tudo já havia sido conversado, mas que eu estaria dentro de minhas possibilidades, acompanhando a questão e auxiliando-o em uma boa educação.

Passou se um mês ou pouco mais do que isso, e a tão temível pandemia chegou até nós. Juntamente com ela a possiblidade de trabalhar a tarefa me dada de forma intensiva e prática em um sistema educacional compulsório de “Homescholling”. Já há alguns anos tinha descartado essa possibilidade em minha casa. Confesso que cogitei algumas vezes, pelo estilo de vida que vivemos, mas sabia que por conta da minha saúde emocional e a dos meus filhos, estaria fora de cogitação, mas enfim veio a prova necessária. Sem a possibilidade das crianças irem à escola coube a nós pais, no meu caso, a mim mãe, tal atividade. Minha expectativa era grande, organizei o espaço, peguei os cadernos, relembrei questões pedagógicas apreendidas na universidade, e disse comigo mesma: “não tem erro, como uma boa mestra e artista que sou, conseguirei proporcionar um ensino leve e lúdico que meu filho em fase de alfabetização necessita”. Já nos primeiros minutos olhei repetidas vezes a vara posta em cima do armário da cozinha, mas me contive para evitar que o trauma fosse maior. Dias se passaram e minha preocupação maior não era se ele estaria absorvendo o conteúdo ou não, mas evitar que eu tivesse contrações parindo antes da hora e fazer com que ele ficasse sentado pelo menos por trinta minutos. Agora não tinha nenhum colega para ele ajudar em suas dificuldades, qual seria então o real motivo da insistência em sair daquela cadeira?

Em um desses temerosos dias, liberei a fera para sair e brincar com outras crias que também estavam retidas. Moro em uma comunidade com várias crianças de quase mesma idade. As mães se uniram em sororidade para planejar uma estratégia de guerra mais eficaz. Teríamos um horário onde todas as crianças permaneceriam em suas trincheiras, em condições de “lockdown”, para estudarem. Ao fim desse período do dia, elas estariam livres para extirpar toda energia restante. Soltei o filho mais velho, respirei por alguns minutos em minha cadeira com livros e lápis espalhados à minha frente e tomei coragem para acordar o bebê e perder meus parcos minutos do dia sem vozes clamando “mamãe”. Era necessário, ou do contrário seria penalizada à noite. Fui até o quarto, chamei o menino e aguardei até que se despertasse, pois ele tem seu próprio tempo. Enquanto isso, preparei uma frutinha picada e liguei “Masha e o Urso” para que ele se animasse e terminasse logo o processo. Ainda teria alguns minutos livres por isso voltei à cadeira, mas agora com um livro de adulto em mãos. Respirei profundamente me preparando para um tempo de permanência sentada em solitude. Mas antes de continuar, cometi o mesmo erro da mulher de Ló: olhei para traz. O que vi, foi minha herança, meu legado ao mundo, perdendo seu precioso tempo de capacitação assistindo um desenho nada educativo. Disse a mim mesma: “Eu nunca vou desistir de ajudar!” Levantei de minha cadeira, peguei o menino que incomodado resmungava, tirei forçadamente o pijama dele, e o arrastei até a varanda. Preparei a bagagem, o carrinho e seu patinete e disse, vamos brincar, achando que estava promovendo o bem à humanidade que viria após mim. Ele relutou, mas deu alguns pequenos e vagarosos passos até a cerca que separava minha casa da vida externa.

Sem olhar para trás, continuei minhas passadas no único caminho cimentado que tinha, mas quando novamente olhei, lá estava ele, sentado com dois carrinhos em mãos brincando e cantando. Não pude acreditar, chamei-o, ao que me respondeu apenas com um gemido: “hum, hum!” Tentei convencê-lo de diversas maneiras: “Vamos brincar com…”, e citei a seguir todos os nomes das crianças da comunidade incluindo o seu irmão. Mas a resposta variava entre o gemido, e um mais claro “Não!” Apelei e disse: “Vamos para o vovô!” Quando a resposta foi a mesma, percebi que havia perdido a guerra, e o que me restava era esperar o seu tempo, perdendo o meu precioso. 

Enquanto ele permanece sentado deixa eu te passar uma informação que talvez você não saiba, as mães não apenas são mártires, mas elas gostam de se colocar nesse lugar a partir de torturas, mesmo quando não é necessário. Se não me bastasse o tempo de quarentena e o Homescholling, ainda assistia em meus minutos livres, vídeos de como ser uma melhor mãe. Não me pergunte o motivo. Em um desses documentários escutei uma frase, que vou reproduzi-la por completo para não correr o risco de simplificar em minhas palavras:

“As crianças ignoram os relógios, os relógios tem a função de submeter o tempo do corpo ao tempo da máquina, mas as crianças só reconhecem os seus próprios corpos como marcadores de seu tempo. Se as crianças usam relógios, elas os usam como brinquedo. Que maravilhosa subversão, usar a gaiola do deus Cronos, como brinquedo de Kairós, o Deus do tempo, da vida”.

Não creio que haja necessidade de dar uma explicação sobre a frase, qualquer coisa te dou um tempo maior para reler. Porém quero exemplificar. Há poucos dias tive a grande e sublime ideia de comprar um relógio para o menino de 6 anos, para que quando fosse solto de sua trincheira ele tivesse autonomamente em seu punho a orientação do toque de recolher. Quando li essa frase, veio à lembrança, as inúmeras vezes que tive de arrastá-lo à força e aos prantos, carregando o bebê em baixo do outro braço para retirá-lo da quadra em que brincava, tentando inutilmente explicar que estava anoitecendo e que poderíamos ter uma surpresa desagradável caso demorássemos mais, como uma cascavel no meio do caminho. Seria muita inocência minha acreditar que um relógio de super-heróis seria a solução. E o pior, iria enquadrá-lo ainda cedo nessa gaiola dita acima.

Voltando ao bebê que agora já mostrava indícios de que se levantaria. Fiquei ao longe observando o seu processo. Quando retornou a caminhada fiquei aliviada, pensando que agora finalmente ele poderia chegar ao seu destino onde aprenderia na prática a se relacionar, praticaria suas habilidades motoras e desenvolveria sua cognição. Mas apenas em alguns metros parou novamente, agora diante de um campo de plantas chamadas “Dente de leão”. Com suas pequenas flores roxas ou amarelas e minúsculas pétalas brancas que se espalham pelo ar com um leve sopro, elas exercem uma atração inexplicável em crianças. Saiu correndo entre elas, e soprando gritava para mim: “Olha mamãe! Que lindo! Que lindo!”. Impaciente, esperei por alguns minutos peguei-o pela mão e expliquei em baixo, porém claro tom o nosso objetivo final. Não sei o porquê não me entendeu como esperava, por isso coloquei o a força no carrinho e segui em frente passando pela tão temível casa dos avós. Mais um obstáculo ao destino ansiado.

Enfim, chegando à tão esperada quadra, lá estavam as crianças brincando e as mães exaustas sentadas em uma escada de cimento nada confortável, observando o desenvolvimento de seus filhos. Estavam todas ali, mártires de seu próprio rebento, gastando seus resumidos tempos livres falando deles. Relacionavam-se e apreciavam seus pequenos mestres plenos em seu tempo Kairós. Não havia a quem ajudar, a não ser por esporádicas brigas ou quedas dos pequeninos. Finalmente obedeci à ordem dada por meus dois mestres por longos anos, cuja quarentena fora como aula de reforço ou até mesmo prova de recuperação: Sentei!

Diana Magalhães

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