
Sábado à tarde, sol laranja do Cerrado compondo a terra vermelha que se infiltra nos sulcos dos pés rachados pela seca. O caçula havia dormido pela manhã, e seus olhinhos arregalados confirmavam a mãe que aquela tarde não teria tempo livre, enquanto o mais velho ao som do carro ligado à seu gosto, dançava com toda a energia de um corpo de 20 kg livre de espasmos e estresses. Cá estava eu só sonhando em escaldar os pés e orgulhosamente “fazer a unha” (Aprendera cedo com minha mãe a não depender de manicures). Apesar de ser uma atividade rotineira, ainda me pergunto se não seria um adorno desnecessário, e um tempo gasto inutilmente, já que na semana seguinte as cutículas, que às vezes incomodam apenas a mim, e para muitos é um sinal de proteção à unha, voltarão. Porém ainda insisto em manter a atividade em minha agenda semanal. E o pai vendo minha frustração de ter o tempo de beleza da semana se exaurindo com toda euforia das crianças, arma na varanda uma piscina de plástico azul e liga a mangueira.
Com o alicate em mãos, uma perna dobrada sobre a outra e as costas encurvadas, ora olho para os pés encardidos da terra, ora para as crianças sendo desencardidas pela água. Vejo a maldade escancarada do mais velho com o mais novo, e a do mais novo sendo formada, à medida que se vê penalizado pela idade. Como uma atenta mãe, interfiro, porém percebo que as tramas armadas estão incomodando apenas a mim, por isso, finjo cegueira, e me concentro na cutícula de onde agora escorre sangue, pois acabara sendo rasgada pela desatenção. Limpo com a pequena toalha enfeitada por um macramê já desgastado, feita para a caixa de enxoval já tomada por brinquedos, árvore de natal, e malas, coloco um pouco de açúcar cristal (mandinga ensinada também pela mãe), e vejo o sangue aos poucos sendo estancado.
A partir dessa violência ao meu pé, compreendo que o ambiente já não está tão seguro para tal atividade, por isso resolvo gastar meu curto tempo para cuidar daquilo que também não pude durante a semana que passou. Encho o regador e me direciono às folhas secas do “Bastão do Imperador”. Há dois anos, minha varanda situada em um sítio de uma cidade do interior de Minas Gerais, não tinha sequer um cacto para seu adorno. Não era adepta ao cultivo de plantas, e também viajava muito para tal atividade. Via minha casa como albergue de passagens, e plantas naturais sugerem um lar. Nessa época tínhamos apenas um bebê que ainda me permitira essa vida mais nômade. Mas em um determinado dia, o marido em uma viagem ao sítio dos tios, trouxe algumas pequenas e delicadas mudas de plantas desconhecidas. Quando vi as mudas, disse enfática para ele que não esperasse de mim qualquer envolvimento nesse novo projeto, não gostava e não levava jeito para. Me tranquilizou e falou que ele próprio cuidaria. Acreditei! Plantou algumas mudas em latas de leite e a muda do bastão do imperador no canto direito da varanda. Disse que dava uma flor encantadora. Dei de ombros, tentando mostrar indiferença.
Passaram se algumas semanas, e é claro que com tantas viagens do marido alguém teria que assumir a investida. Dava-me pena ver as plantas morrendo por conta da ferrugem da lata. Comecei a pegar gosto pela atividade, e por conta do segundo filho juntamente com um desejo instintivo maternal de preparar o ninho, comecei a apreciar e desejar uma casa com mais raízes. Mas era preciso tempo para cultivar essas raízes, tal como para cultivar um lar. Falando dessas, o bastão do imperador, apreciou o lugar que estava e começou a crescer verticalmente e horizontalmente, mais do que o espaço suportava. Contudo agora suas raízes emaranhadas e mais resistentes do que qualquer outra planta que manuseei, já estavam invadindo a parte cimentada. As flores rosas no cume de bastões parecendo de plástico, com pequenos brotos amarelos e vermelhos, eram de uma beleza inenarrável. Porém suas folhas agredidas pelo sol e pelo telhado baixo demais para sua estatura cobriam sua beleza.
Algumas semanas/ meses se passaram, as cutículas foram mexidas algumas dezenas de vezes, porém o jardim continuava o mesmo. As distrações e correrias me impediram novamente de olhar para a necessária poda, e dessa forma, não mais apenas formigas e folhas queimadas, mas abelhas e pragas invadiram o canteiro particular. Era preciso aproveitar que havia passado o tempo de estiagem, onde banhos de mangueira não eram mais necessários, pois foram trocados por banhos de chuvas, e definir o que fazer com o canteiro da direita, já que não estava belo o suficiente para continuar, apesar da insistência das esplêndidas flores cor de rosa enfeitando o bastão, resistirem e me convencerem à sua permanência no local plantado.
Tomei coragem e chamei meu vizinho para realizar a poda. Dizem que se quisermos ter uma poda mais efetiva é isso que devemos fazer, pois não reconhecemos o quão severamente deve ser ela, e nosso afeto compromete a eficácia. Coincidentemente o vizinho era meu próprio pai, que nunca teve nenhuma sensação de comiseração, quando era necessário que eu fosse podada. Pegou seu instrumento, uma grande tesoura afiada e iniciou o processo. Enquanto cortava eu ia retirando os ramos espalhados. Alguns pequenos tocos ficaram, e minha pressa pelo almoço já me impulsionava a deixar mais uma vez a poda para mais tarde. Mas a perseverança ou poderíamos chamar de obstinação de meu vizinho com seus cabelos brancos não me permitiram permanecer em minha rotina de sobrevivência, e tive que esperar ele com todo o seu esforço retirar no talo os antigos ramos. Fim da poda, fomos suprir o corpo. A alma estava ferida ao ver o canteiro vazio, entretanto minutos depois veio uma chuva forte, inesperada pelo calor que fazia e assim como com a terra, refrescou corpo, alma e espirito trazendo à lembrança de dois anos atrás quando as pequenas mudas foram plantadas. Essa memória trouxe esperança.
Quem dera fosse apenas esse jardim ameaçado! O jardim dEle também o foi, e agora sofremos à dura penas o mal de não termos podado no período correto. Ou será que estamos sofrendo a graça e misericórdia de sermos podados fora do tempo. Ele nos tirou, a partir de uma pandemia permitida, de dentro do nosso tempo, nossa rotina de sobrevivência, de cutículas e unhas adornadas, para nos inserir em seu tempo sabático e sermos podados. Retirar pragas, matos e folhas secas que impedem a luz de entrar e que escondem pragas.
O sábado voltou, porém agora mais estendido dura sete dias. A varanda é mais visitada pelos moradores que tentam se acostumar em simplesmente não ter pressa. O tempo parou ao redor do Jardim, e cada um tem a oportunidade de continuar sangrando sua própria cutícula na rotina, ou pegar o instrumento de poda e cortar o que impede uma nova folhagem. E mesmo que o canteiro, por um breve período permaneça aparentemente sem vida, existe a fé que não tem a ver com irracionalidade, mas com convicções de leis invisíveis e naturais. Leis plantadas por um homem, confundido por uma mulher como o jardineiro de seu próprio túmulo. E essa mulher a mais de 2000 anos foi questionada: por que estava ali, entre os mortos, procurando aquele que vivia?
Estamos em quarentena, em plena quaresma, deixemos morrer, podar, aquilo que não tem vida. Sentemos em nossas varandas com a graça de termos ao nosso lado, os pares que escolhemos conviver, entreguemos nossos instrumentos de corte e poda, ao homem com aparência de jardineiro, que sabe o que é morrer, mas também o que é renascer. Celebremos o domingo de páscoa, mesmo que ainda seja sábado.
Diana Magalhães, 11 de abril de 2020

Aaaa como me acalma e me conforta ler suas crônicas tenho certeza que veio do céu!!! Te amo Diana amo sua família ! Que Deus continue abençoando vcs e por favor nunca pare de escrever !
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Obrigada Priscilla! Demorei a responder pois estava com problemas no acesso do site.
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