
Já faz alguns dias que alguns tucanos vieram habitar a árvore de frente à minha casa. Aproximadamente uns 4 ou 6. Tive a impressão de serem 5 mas como li sobre eles e descobri que são monogâmicos, prefiro acreditar que estão em pares. Não sei exatamente o motivo de virem em alguns períodos para a nossa região. Nem sempre os tenho em meu quintal, mas quando eles vêm gosto de sentar em minha varanda e apreciá-los. São aves de uma beleza rara que quase também se tornaram raros por conta do homem. Creio que eles vêm em tempo de acasalamento e estão ali preparando sua casa temporária. Macho e fêmea constroem o ninho, mas quando os filhotes vêm, o macho fica por conta da provisão e a fêmea do cuidado e da proteção. A natureza não tem medo de distinguir papeis.
Para estes 4, 5 ou 6, sua nova habitação é uma árvore não tão alta, mas frondosa, tem algo que não sei bem definir se é fruto, mas que possui uma semente bem interessante vermelha. Fica ao lado do caminho de casa e é a árvore que meu filho mais velho ama subir e se esconder para me dar susto. Apesar da quantidade de formigas presente nela, e de sua alergia grave por esses insetos, prefiro deixa-lo correr o risco de ao final do dia tomar uma injeção de adrenalina, do que tirá-lo do prazer e gosto da infância que cultivarão suas memórias. Não sei se os terei por muito tempo, já que o tempo de incubação de seus ovos é apenas 15 dias. Quem dera se também o nosso fosse semelhante, talvez eu animasse ter 4 crias. Mas enquanto estão, habitam.
Viajei no carnaval um pouco a contragosto. Era uma viagem rápida de apenas dois dias, mas temi não ver meus vizinhos na volta e, além disso, as duas crianças estavam severamente gripadas. Iria submetê-las a uma viagem para um lugar desconhecido, com pessoas que também não conhecia, apesar do cuidado que tiveram ao separar um quarto de hotel para nossa família. De qualquer forma não estaria no conforto do meu lar. Mas tinha prometido que teríamos uma viagem em família, por isso cumpri, já que o mais velho estava semanas contando as noites que faltavam para a viagem.
É interessante como criança contabiliza o tempo. Sua vida ainda curta e imatura a impede de perder dias ou horas, acreditando ser infinita tal como o adulto acredita. Já faz 11 meses que quase todos os dias ele me pergunta quanto falta para seu aniversário. Para que ele entenda melhor a noção de tempo, falo sobre suas noites dormidas – apesar de que pra ele é o tempo mais desperdiçado do dia. Estava conseguindo trabalhar sua ansiedade, até que um amigo meu perguntando que dia era sua festa, e ao dizer a data do nascimento, alegremente compartilhou que faltava muito pouco. O menino pulando na cadeira, perguntou o quanto. Fiquei gélida sabendo da resposta e da possível reação, mas quis ver o desfecho da história. “Três”, respondeu o adulto em sua noção de tempo. “Eba!!! Três noites.”, “Não! Três meses.” A criança com um olhar curioso olhou para a mãe, que sabendo a pergunta respondeu: “Noventa noites”. Ao ver a decepção em lágrimas o adulto logo entendeu o quanto a noite acompanhada do dia para essa criança tinha mais valor do que para ele.
Enfim, era uma viagem de apenas uma noite, nem ao menos pensei que poderia desse pequeno espaço de tempo, nascer uma crônica. Acordamos bem cedo, achando que colocaria as duas crianças dormindo ainda no carro. Mas o mais velho levantou ainda mais cedo com medo de ser esquecido. (Isso porque ainda não assistiu ao filme de Macaulay Culkin). Tudo aparentemente organizado dentro do carro, as duas crias acordadas, tossindo muito para agravar a culpa da mãe irresponsável. Saímos ainda com a neblina baixa, uma viagem de apenas três horas – incontáveis para o menino. Fomos direto ao local onde o marido iria palestrar. Era uma chácara, que estava coberta de poças por conta da chuva e tinha duas piscinas realmente chamativas com sua água cristalina e gelada. Nem preciso dizer que não durou muito tempo para que os dois gripados estivessem encharcados. O Bebê por conta das poças e a criança porque não suportou o fato de ver duas piscinas vazias de pessoas, mesmo com o tempo fechado e as nuvens carregadas. Mais uma vez não consegui privá-los da vivência, mesmo sabendo da possível consequência na noite que viria.
Passamos a manhã e inicio da tarde no local, e depois fomos ao hotel a fim de descansar. Porém os dois exploradores que gerei não permitiram os pais nem ao menos fechar os olhos. Era um quarto de hotel pequeno, porém bem aconchegante. Não tinha muito espaço para as crianças, mas quem disse que se importaram? Nós adultos é que pensamos necessitar de espaços apropriados para cada atividade, eles criam e logo uma cama, branca, assepticamente limpa se transforma em um pula-pula. Voltamos à noite ao local do encontro, a criança já tinha encontrado seus pares, e mesmo estando um pouco calor, eu agasalhava os dois na tentativa do estrago ser menor. Mas ambos insistiam em ficar no sereno. Por fim desisti e entreguei ao destino.
Voltando ao quarto de hotel, como esperado, tivemos uma longa noite. Chegaram dormindo. Respirei aliviada devido ao cansaço do dia. Colocamos ambos em seus respectivos espaços, O mais velho em uma cama de canto e o mais novo em um pequeno berço desmontável. Deitamos exaustos. Mas logo que se passou uma hora o bebê acordou por algum incômodo, não sei se advindo da gripe ou do calor que a mãe proporcionou proibindo o ar-condicionado. E assim se repetiu a cada hora, até que enfim colocamos ele entre nós e eu fui dormir cheirando o chulé do pai.
Amanheceu, e as olheiras não escondiam a noite mal dormida. Arrumamo-nos, tentando conciliar o espaço apertado do quarto de hotel. Colocamos tudo nas duas pequenas malas e fomos em direção à chácara onde se encontravam os pares do menino e os jovens que participariam de mais um dia de palestra.
Tentei tirar da reserva o combustível para correr atrás do bebê que impressionantemente não perdera o ritmo depois dessa noite mal dormida. O garoto já colocara a sunga e nadava como um peixe em uma piscina quase olímpica. A manhã acabou, e como era de se esperar o pequeno estava se esforçando para manter os olhos abertos. Almoçamos rápido despedimos dos recém-conhecidos e organizamos a tralha no carro para voltarmos. Mal entrou no carro, dei o remédio, pois estava febril e o bebê dormiu. Dificultosamente forçávamos o mais velho a entrar depois que se despediu dos novos amigos.
O marido ligou o carro. Pedíamos silêncio ao mais velho que contrariado lamentava o porquê de ter que ir embora. Pensei em todos os argumentos legítimos para responder, até que uma pergunta dele silenciou minha alma, a fim de mais uma vez aprender com a criança: “Podemos morar aqui para sempre?” “Oi????” Eu que ansiava chegar em minha casa, em meu espaço, sentar em minha varanda na cadeira de fio e observar quieta se os tucanos ainda habitavam a árvore, fiquei perplexa. O que ele viu de tão interessante que o faz pensar na possibilidade de deixar seu quarto cheio de brinquedos, sua casa aconchegante em troca de um quarto de hotel? Mas algo me encaminhou para o campo de suas ideias, e percebi que em seus conceitos, casa não tinha ligação com espaço físico, mas com pessoas. Sua habitação e aconchego estavam nos pares que ele permitiu dividir o seu espaço durante os dois dias. Tais como os Tucanos que migram buscando ninho para si e encontram com seus pares. Refleti sobre isso durante toda a viagem, e assim que cheguei à varanda de casa olhei para a árvore e lá estavam eles, pretos com seus bicos laranja, aguardando meu retorno. Assentei observei, até que ouvi o primeiro: “Mãe!” e entrei para habitar com meus pares.
“Até o pardal encontrou morada, e a andorinha ninho para si, para abrigar seus filhotes, um lugar próximo ao teu altar, ó Eterno dos exércitos” Salmo 84.3

Diana, curtindo muito ler as crônicas. Continue !!!!
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