A Laranja

Estava eu em meu cotidiano, como diz Chico Buarque, fazendo tudo sempre igual, sendo sacudida às seis da manhã, com um choro pontual e uma boca que não poderia beijar ninguém até às dez, quando possivelmente estaria exalando hortelã, ou quem sabe se a manhã fosse tranquila, com um gosto de café. Depois de ter amamentado, brincado de forma lúdica e pedagógica com o pequeno, até que o furacão acordou e tomou toda a atenção para si, chegou o momento dos dois compartilharem o mesmo desenho. Dessa vez o mais velho ganhou a discussão e coloquei ao invés de Mozart do “Baby Einstein” a voz irritante de uma garota loirinha que atazana a vida de um urso. Enquanto isso fui realizar a dura tarefa de colocar em ordem o que uma hora de criança acordada faz.  Após recolher os brinquedos (algumas mães conseguem deixa-los espalhados até que eles realmente parem de brincar, infelizmente ainda não abracei o caos nessa magnitude), fui lavar a louça, na expectativa de pelo menos ensaboá-las antes do primeiro: “MÃE!!” Frustrei me. A cria mais velha, gritou que estava com fome. Respirei profundamente tentando lembrar porque mesmo ele rejeitou o ovo que tão cuidadosamente preparei para o horário separado para o café da manhã? Calei e lembrei que seria mais uma batalha travada inutilmente. Disse como uma boa mãe que zela pela saúde nutricional da família, que era a hora da fruta (me arrependi no exato momento que terminei a frase, a bolacha recheada seria tão mais prática) Empinei o nariz e mantive a ordem apesar da lamúria vindo da sala. “Tudo bem, eu quero laranja!” disse ele parecendo adivinhar que dessa forma também me castigaria. POR QUE????? Banana, maça, são tão mais simples, a primeira até ele descasca, a segunda se como eu, você também não é do tipo mãe orgânica, é só dar uma esfregadinha na pia e pronto. Mas laranja! Essa precisa de anos de treino, habilidades psicomotoras, dom da paciência e muito mais. Mas ele estava decidido, laranja é uma fruta e ponto.

Saiba que aprendi a descascar laranja aproximadamente com 34 anos, ou seja, no ano passado. Tá, eu até tentava e para mim estava tranquilo, quando o estrago era muito eu comia o bagaço e já era. Mas para eles não, tem que estar na medida, nem muito fina para que não corra o risco de furar e a sujeira ser maior, e nem com tiras verdes, para que não queime a boca do bebê. Mestre era meu pai. Descascava uma laranja como ninguém, a espiral era completa, sem quebras pelo caminho, dava gosto de olhar aquela faca fina e afiada de cabo de madeira marrom deslizando ao redor da laranja, era quase uma arte marcial, talvez o seu Miyagi devesse ter tentado usar em sua técnica de Karate.

Quando era criança, todo dia na hora do almoço, minha mãe colocava as sete panelas de ferro na mesa, uma comida típica mineira que na época eu ainda não sabia apreciar devidamente (ainda não sei como conseguia, aqui em casa no máximo são duas, misturo tudo para sujar menos louça, quando não busco em uma marmita da casa dela que é minha vizinha). Enquanto isso meu pai sentava com as cinco laranjas em sua frente e começava a sua arte. Uma era dividida no meio, a outra era com uma tampa triangular que proporcionava mais suco, e a minha era a com tampa menor. Não sei o porquê do sabor da tampinha ser mais gostoso em relação ao restante da laranja, mas para mim era.

Teve até uma época que ele comprou uma maquininha de descascar. Era bem rápida. Mas também ela rapidamente foi deixada em desuso. Era funcional, mas não cumpria todo o papel que deveria cumprir como o modelo artesanal.  Era um tempo em que sentávamos e realmente estávamos ao mesmo tempo à mesa. Não me lembro de sensação de pressa desse momento. Não que os pais não a tivessem, com certeza minha mãe tendo a profissão que nunca tem fim o checklist, “dona de casa” e meu pai também em período integral, tinham metas e horários para cumprir. Mas esse tempo era sagrado. Nenhum barulho de louça sendo lavada, nenhum telefone sendo atendido. Era o tempo da mesa. Mal sabiam eles que as panelas espalhadas na mesa, ou a casca da laranja em espiral em um prato junto com as tampas já espremidas, poderiam depois de mais ou menos 27 anos me ensinar algo. Eles simplesmente estavam vivendo o seu cotidiano, registrado nos pequenos e potentes HDs de seus filhos, acessado assim que o primeiro sumo da casca chegou em minhas narinas naquela turbulenta manhã.

Parei a faca no momento exato que senti o cheiro da fragrância. Memórias são surpreendidas pelos nossos sentidos. Inspirei tentando absorver todo significante do momento. Minha pressa embalada em caixinhas de suco ditos 100% natural estagnou e descasquei como quem dança ao som de Mozart, apesar da voz da Macha. Sabia que não tinha a ver apenas com a vitamina C que também podemos repor em gotas. Era o tempo de pausa, perdido ao descascar uma laranja, tentando feri-la menos o possível, que enriquecia o encontro, pois em minha alma camadas também estavam sendo retiradas em espirais. Na pressa feria, ou deixava rastros, mas aos poucos na prática que a maternidade dá para a reconstrução de um ser adulto, ela finalmente estava pronta para ser espremida, esmagada, a fim de sair um suco doce para o outro saborear.

Fui até a sala com duas metades de laranja, o menino fez festa ao vê-las e sem tirar os olhos do urso que corria para conter a bagunça da pequena menina começou a apreciá-la. Já com o bebê, sentei ao seu lado e lentamente ia apertando a laranja enquanto ele a chupava de forma barulhenta. Observei bem os dois rostinhos que não me notava, e nem apreciava o esforço que a mãe fizera ao descascar a laranja naquela manhã, mas me contentei em ser pressionada e saboreada, sabendo o quanto fui nutrida por essa experiência anos antes em minha própria infância. Era tempo de me oferecer à mesa.

“Preparas uma mesa perante mim…” Salmo 23

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