Astromélia

Ganhei uma flor. Mais especificamente uma Alstroemeria hybrida, ou popularmente conhecida como Astromélia. É uma planta florífera, rizomatosa e herbácea. Como não faço ideia do que isso significa, posso dizer que é linda e que me confundi com o lírio. Tentar descrevê-la a partir da linguagem, me afastaria da sua essência, ou da experiência que ela me proporcionou, então caso queira saber como ela é, pode digitar no site de busca e verá várias imagens, só vou te dar a dica que a minha é de tom laranja, e rosa, ou amarelo, sei la! Não importa. Ganhei uma flor!

Foi em um sábado quando acontecia um churrasco, que no Brasil e também em Israel no Antigo testamento, é um momento sagrado de comunhão e sacrifício. Foi colocada em uma taça de chopp, um contraste intrigante, já que são tão delicadas em um copo um pouco grosseiro, não importa ficou interessante e útil, já que em minha improvisada casa não teria onde colocá-las. Achei um presente de uma sensibilidade e uma inutilidade incrível. Por que alguém se importaria em me dar uma flor que morreria tão breve quanto eu iria embora? Disse me que era para dar um tom de lar à casa improvisada.

Coloquei no centro da mesma mesa com o forro horripilante azul, agora a decoração estava completa. No lugar de um vaso branco, com flores coloridas e artificiais que em meu primeiro dia com o menino, fiz uma pintura da natureza morta digna de estar no museu do Louvre. No mesmo dia, joguei o desenho fora e retirei o vaso de lá colocando em um canto escondido. Já faz um tempo que evito tais decorações. Prefiro o que morre, ou para ser menos fatalista, o que tem vida.

Aqui na Espanha, tem um costume bem interessante que me deixou uma vez embaraçada (não no sentido espanhol). Eles fazem uma “festa de aniversário” de um ano da morte de um ente querido. Com comes, bebes e flores na casa improvisada de quem tem vida e de quem se foi. Exatamente no dia que chegamos Dona Mutcha tinha preparado um banquete com aroma de bacalhau para a festa de aniversário do seu marido. E talvez por ter a menor taxa de natalidade entre os países, ou por sua idade avançada, todo fim de semana a senhorinha colocava sua melhor roupa e saía avisando que ia a um aniversário. Em um desses dias, esquecida do motivo da “comemoração”, perguntei animada à Dona que retornava, se a festa tinha sido boa, ela com uma cara de espanto que fez minha fisionomia animada cair no mesmo instante, pediu para que repetisse a pergunta pois não tinha entendido. Enfim, talvez eles que estejam certo afinal no Livro diz que é melhor estar onde tem luto do que em banquetes. Aprendemos com o que morre, pois esse tem vida.

Voltando à flor com seus dias contados, fiquei olhando pra ela, até que de alguma forma ela me olhasse. Sabia que tinha algo para me dizer, só precisava esperar o tempo que ela quisesse. Mas enquanto não fiz silencio, ela se recusou a falar.

Passado cinco dias, um terço de sua vida, li que deveria cortar seus caules para que durasse mais, mas sua beleza já não estava como no primeiro dia, porém ela resolveu se comunicar. Tinha acabado de fazer o bebê dormir. O mais velho tinha ido para o trabalho com o pai. Este teve compaixão da mãe, que não dormira a noite por conta de uns dentes que estavam rasgando a gengiva do mais novo. Continuava fazendo aquilo que fui fazer, nada tão relevante, apenas ficar com as crianças enquanto o pai trabalhava. Com medo de arriscar a dirigir em um trânsito onde as pessoas dirigem com cautela, respeitam a velocidade e param para o pedestre passar, não fiz nada muito diferente. Alguns dias ia ao parquinho, outros ia à outro parquinho mais distante, ou a cafeteria com um parquinho, nada além disso, nada tão relevante. A não ser cuidar para que o bebê que ainda não sentava não caísse e batesse a cabeça, até que enfim ele se firmou. Limpar bem o chão, já que agora em sua fase oral resolveu se arrastar, até que conseguiu engatinhar e quase caiu de cabeça na tentativa de descer o degrau. Ah! Teve o dia em que escalou e ficou em pé sozinho no berço. Juntou suas primeiras sílabas, e emocionada achei que já estava me chamando. Precocemente aprendeu a fazer suas necessidades no vaso, não apetecia a ele mais liberá-las nas fraldas, então toda vez que fazia uma força visível corria para o banheiro (eu que corria segurando ele é claro, não foi tão precoce assim). Bateu palmas, brincou com o irmão de esconder, e enfim começaram as noites mal dormidas por conta dos dentes. Mas nada de relevante aconteceu nesse curto intervalo de vida.

Voltando à minha conversa com aquilo que estava caminhando para a morte a “Astro”, (me permitiu que a chamasse assim, era mais intimo), falou-me sobre encontros que passam e na minha pressa, não me permito ser encontrada. Lembrou-me dessa mesma noite mal dormida, que a todo custo tentava forçar a criança, a encontrar o sono que tinha ido embora engatinhando. Enquanto não aquietei, me silenciei, abri para o encontro, olhei em seus pequeninos olhos com lágrimas, e disse que podia descansar que agora a alma da mamãe estava presente, ele não adormeceu.

 Mas não parou no calor da calefação da minha casa, também me lembrou, do refeitório com suas paredes de vidro, onde me assentava junto com as crianças, o chefe de cozinha, seus dois ajudantes e o outro pai, meu companheiro das manhãs. Comia e aguardava os demais que saiam da aula, em um dia eufóricos e em outros com os olhos inchados.

Mas seria confortável se parasse neste ambiente, afinal eram alguns mais chegados que irmãos, jogávamos UNO, ríamos, comíamos tapas, falávamos besteiras censuradas para menores. Direcionou-me para fora dos muros baixos e seguros, ao parque àqueles dois encontros com o avô e sua netinha. (tenho que deixar uma nota que ele me achou deveras jovem para ser mãe de dois meninos) e tantos outros avós que ficam com seus netos enquanto seus pais correm sem contar seus dias. À padaria ao lado da minha casa em uma manhã, que escutei e entendi em parte o galego da jovem senhora que se contradizia dizendo o quanto estava cansada com tanto trabalho e orgulhosa pelos seus três filhos estarem dando duro para alcançarem sucesso.

E o que dizer dos pequenos e profundos encontros com a senhora locadora da casa onde fiquei e que mora no andar de cima. Uma senhora que parece não ter sono , muito cedo e muito tarde se ouve o som dos tamancos de madeira no teto. Me lembro do dia em que me levou com as crianças para ver sua horta e galinheiro atravessando a rua. “Está muito mal cuidada”, repetia ela a todo instante, apesar de não precisar me avisar, já que se via com o mato alto, os dejetos dos animais e as caixas de ovos espalhadas. O motivo era a falta do seu marido que morrera há um ano. Achei interessante, já que me contara que durante seus 50 e poucos anos juntos, mal permaneciam debaixo do mesmo teto, pois era eletricista e trabalhava em navios em alto mar. Criara seus três filhos bravamente mariscando pela orla. Seu marido um mês em terra, oito no mar. Aos poucos isso foi mudando dois em terra, quatro no mar. Até que veio a doença que em pouco tempo o tirou dela. Hoje chora a falta, os vincos de sua pele em uma tarde de encontro viraram margens de suas lágrimas. Disse que quando estava, era presente, mas insistia em repetir a falta.

Encontros que geram falta.

Lembrou-me também do dia que fiz um caminho diferente. O mais velho reclamava de dor na perna, enquanto o mais novo balbuciava no carrinho. Resolvi atalhar, e passei pela ponte de pedra, embaixo corria o rio, e recordei do filosofo Heráclito. O rio não é diferente apenas porque a água não é mais a mesma, mas porque mudamos. Por mais que me encontre novamente com a água que parece a mesma, nunca será o mesmo momento.

Pouco mais de 50 dias, e o que mudou em tão pouco tempo, nada de tão relevante?

Espanha agora tem estado: Galícia. Tem cidade: Vigo. Tem Pueblo: Moaña, mais especificamente rua das Fragas em Meira. Tem o aroma de bacalhau das mãos enrugadas, porém firmes. Tem melodia de harpa misturada com o som do mar que fizeram algumas lágrimas escorrer a falta, poucos dias antes da partida.

Hoje não tem churrasco, mas tem oferta, teve sacrifícios, mas o mais importante, tiveram encontros. Afinal, antes do primeiro sacrifício para vestir o nu, ele se Encontrava com, na viração do dia.

E assim Astromélia finalmente finaliza seu discurso dizendo o que mais me impressionou a respeito de si. “Deram me muitas características para tentarem me significar, mas aqueles que não tem compromisso em me sistematizar, e só envolver me de significante disse que represento devoção, relação duradoura, saudade agradecimento”.

“Ouvindo o homem e sua mulher os passos do Senhor Deus que andava pelo jardim quando soprava a brisa do dia…” (Gênesis 3.8)

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