Bolo de cenoura

Recebi o legado de cozinheira da minha avó materna. Claro que não veio completo, pois além, do bombocado, bolo de cenoura, ovo frito e gelatina, ela sabe cozinhar um frango ao molho com as devidas combinações mineiras como ninguém, além da cocada que ajudava no sustento de casa. Mas até onde me lembro, essas são suas únicas especialidades culinárias e não lhe apetecia tanto assim estar na cozinha. De uma forma surpreendente ou até mesmo de sobrevivência, o legado não passou pelas filhas, pulou uma geração e chegou até mim. Então quem me conhece sabe bem que faço um bolo de cenoura como poucos. Tudo bem que é só jogar todos os ingredientes no liquidificador e depois despejar na forma, mas saiba que tem seu perigo de falha, pelo menos eu já cometi algumas. Enfim, essa é minha especialidade e a carrego com todo o peso de glória, ainda mais depois que casei com um psicólogo que diz que cozinhar é sua terapia, quem sou eu, para privá-lo de tal benefício? Fico com a louça.

Porém algumas vezes gosto de arriscar. Como em um dia que marquei com alguns amigos de tomarmos um café em casa e quis fazer um bolo integral, quase light. Os ingredientes eram ricos em ambos sentidos: português e espanhol. Castanhas, aveia, chocolate meio amargo e para completar chocolate alpino em pó para a cobertura salpicado com alguns morangos. Não tinha erro! A não ser pelo fato que meu óleo havia acabado e faltava uma colher apenas. Pensei comigo mesma, o que uma colher pode fazer de diferença. Lembrei-me que tinha um óleo onde havia fritado umas batatas apenas uma vez e o coloquei, senti um aroma de eucalipto e vi que o havia armazenado em uma garrafa de desinfetante, mas nada poderia acontecer de ruim. Esperei silenciosa os primeiros a comerem. Como ninguém havia se expressado, em paz fui deliciar meu primeiro pedaço. Esqueci-me que eram todos atores da companhia que faço parte, e te asseguro que são bons atores, ou grandes amigos tentando me encorajar a continuar no esforço de aprender a cozinhar. Esperei todos irem embora e todo o restante do bolo foi descartado.

Mas quero te contar do dia em que meu bolo de cenoura, cruzou o oceano e alcançou paladares requintados da pastelería (confeitaria) espanhola.

Em um dos frios dias da Galícia, estava eu em minha casa rodeada de mármores gélidos na parede, pensando no que poderia fazer de comida para mandar a uma noite de pijama com algumas crianças incluindo a minha, promovida por uma alma caridosa. Não demorou muito para escolher entre as muitas opções o que faria: um bolo de cenoura. “Não tem erro!” Pensei inocente. A não ser que cozinhei as cenouras com medo de quebrar o Mixer e esqueci-me de deixar esfriá-las cozinhando o ovo antes da hora, e pelo fato que a energia caiu três vezes e o forno era elétrico. Lá estava ele, uma mistura das duas receitas da avó: Bombocado e bolo de cenoura. Não pude enviar outra coisa, afinal meu filho havia gasto suas horas livres à tarde para me ajudar, seria muita decepção para a criança. E apesar das muitas preces feitas pelos dois cozinheiros, não houve salvação. Mandei assim mesmo, acreditando que as crianças poderiam estar com fome suficiente para não notar. Engano meu, a pequena travessa voltou pela metade.

Mas ainda restavam alguns dias para comprovar que de fato sabia fazer a receita. E logo surgiu a oportunidade: A noite das mulheres! Seria uma prova de fogo eu sabia, mas eu estaria pronta para enfrentá-la. A cozinha se tornou meu campo de batalha. Acho que poucos dias como esse clamei tanto a Deus. Estava fervorosa, era certo que Ele não me abandonaria nessa prova. Fiz tudo com cuidado, esperei a cenoura esfriar, untei bem a forma, aqueci na temperatura certa o forno, desliguei todos os demais aparelhos eletrônicos para não correr o risco da energia cair novamente. Tudo certo! A não ser por um pequeno detalhe. Aqui na Espanha existem azeites que tem a mesma embalagem que o óleo de girassol, e na minha tamanha confiança não percebi, quando vi já havia despejado a meia xícara dita na receita em todos os demais ingredientes, e aquele cheiro delicado da oliveira recendeu. Quis me jogar na parede e derreter como no melodrama, ou em novelas mexicanas, mas me contive, recolhi as lágrimas e fui ao celular pesquisar receitas de bolo com azeite, e para minha surpresa, descobri que na Espanha se usa tal ingrediente a fim de obter uma massa mais macia. Agora era só vigiar e orar para minha receita espanhola de bolo de cenoura ficar pronta. Foram 40 minutos de intensa agonia, mas por fim lá estava ele, crescendo belo e apetitoso. Fiz a típica calda de chocolate, sentei, olhei e vi que era bom!

“A noite cai, o frio desce” (sim sou da geração Sandy e Junior e não me julguem), e enfim o tão esperado momento onde os pais ficariam com as crias e as mães livres poderiam se reunir com outras mulheres a fim de conversarem o que quisessem depois de falarem tudo acerca de seus filhos. Chegamos à devida casa, eu e minha forma enrolada elegantemente no papel filme. Coloquei-a com os demais alimentos: torta de massa folhada, pão de queijo, guacamole, suchis e sachimis, todas receitas caseiras (homens picam uns salaminhos e queijo, compram batatas e já está, mas mulheres realmente gostam de complicar). Voltando ao bolo, sua aparência estava suficiente bonita para algumas pessoas arriscarem saborear mesmo sabendo da origem, porém o gosto ainda não havia provado. Pela graça ele não havia sido alterado, e apesar de não combinar com o momento, ele estava comestível, para ser sincera até gostoso.

No frio da madrugada, às 23:00, voltamos por conta da criança de uma mãe que clamava peito. Apesar de muito agradável o ambiente, confesso que fiquei feliz por retornar, ainda poderiam me sobrar algumas horas antes do clamor do meu. Todas as luzes apagadas, o pai havia feito um bom trabalho. Deitei relaxada pelo efeito do suquinho de maça e das risadas.

No dia seguinte bateram na porta, era dona Mutcha, fazendo sua ronda matutina. Trazia consigo em um cesto ovos e kiwis orgânicos de sua pequena horta do outro lado da rua. Ela sempre passa pela manhã recolhendo as roupas que a jovem senhora inexperiente deixa estendida na umidade do relento. Como uma boa mineira, procuro algo para oferecer de volta e encontro o restante dele em cima da pia. Embalo-o em um pequeno prato com papel filme novamente e ofereço corajosamente à senhora que me agradece. Pensei em dizer para não se animar muito, mas dado ao sucesso da noite anterior me contive.

Algumas horas mais tarde, quando estava na calçada realizando a dura tarefa de colocar as crianças no carro em suas respectivas cadeirinhas, a filha de dona Mutcha, aparece junto à sua mãe elogiando o biscoito. Pensei que ela estava oferecendo um biscoito de chocolate ao meu filho e prontamente aos prantos da criança recusei falando que não precisava se incomodar. Mas ela insistia dizendo o quanto estava bom. Até que minha amiga que me acompanhava disse que biscoito era bolo. Extasiada parei para ouvi-la, fechando a porta do carro para cobrir o choro da criança. Disse-me que estava muy esquisito, quis concordar, mas lembrei do significado em espanhol da palavra e apenas agradeci. Pediu para que eu a ensinasse e à sua mãe também. O que não contei ainda, é que ao lado de minha casa tem uma pastelería y panadería (como dito anteriormente, confeitaria e padaria) pequena e delicada com doces, roscas, e compotas de geleias na vitrine. Era de Mari, filha de dona Muctha, que após ter recebido da mãe todas as receitas de tartas, biscoitos e empanadas espanholas, fizera um curso de padeira e confeiteira em Santiago. Instantaneamente veio em minha memória um acontecido com o meu filho:

Compramos algumas horas de uma Ludoteca (brinquedoteca). Era um ambiente para os pais que necessitavam deixar as crianças após a escola. Têm muitos brinquedos e atividades programadas, o menino ansiava o dia de ir, chamava de sua escolinha, porém esperávamos dias mais caóticos para leva-lo, pois tínhamos comprado apenas 10 horas. Após uma dessas horas, fomos busca-lo e uma das monitoras contou animada que ele havia ensinado capoeira aos demais. Parei para tentar lembrar onde ele havia aprendido ou até visto tal arte e só me lembrei de seu primo um ano mais novo que às vezes ensaiava alguns golpes perto dele. Ela sem perceber minha inquietação, pegou um pedaço de pau e começou fazer alguns movimentos com sons na boca, perguntando se estava correto. Olhei para a criança ao lado, e sem querer contradizê-la, disse à monitora que era uma arte complexa e que poderia talvez se apresentar daquela forma. Encorajada com a lembrança, pensei comigo: Se meu filho de quatro anos pode ser um mestre de capoeira na Europa, porque eu não poderia ser uma chefe de pratos típicos, afinal quem poderia contradizer uma nativa. Aquela era uma receita de um bolo brasileiro. Aceitei o desafio!

Chegado o dia, só quem estaria era a mãe, era uma confeitaria muito requisitada e a filha estava sobrecarregada de trabalho das festas de fim de ano. Seria um momento único e incrível, afinal um espanhol te convidar para entrar em sua casa, tem que ter bastante intimidade e empatia por você. Mas eu não apenas iria entrar, utilizaria também a cozinha para ensinar uma matriarca com seus mais de 70 anos a fazer um biscoito brasileiro. Preparei todos os ingredientes, me certificando que eram os certos. Peguei o azeite ao invés do óleo, e subi à casa acima da minha. Ela com o seu vestido avental xadrez (típica roupa para fazer faxina) me recebeu mostrando os aposentos. Era um grande apartamento, impecável em sua organização, cheirando a lustra-móveis. A presenteei com uma foto dela e dos meninos tirada em uma das primeiras semanas. Emocionada colocou o porta retrato junto com outros em cima da mesa do comedor (sala de jantar) que enfaticamente repetia, ficava cheio no passado com os 15 integrantes da família. Mostrou-me algumas fotos de pessoas que também haviam se hospedado ali e apontava alegre e saudosista seu marido e netas. Contive as lágrimas, afinal estava ali apenas para ensinar a receita.

Começamos a preparar o local, e ela foi tirando do armário, balança, batedeira e alguns outros utensílios que nunca tinha visto. Tentei explicar que só precisaria de um liquidificador e uma tigela, mas ela estava ali ávida para ser minha aluna. Estava muito nervosa e tentei relaxar. No fim das contas já estávamos rindo com minha falta de jeito e dona Mutcha já havia pegado a rédea. Preparava chantilly para enfeitar o bolo, não adiantaria explicar que não combinava, estava animada demais com a companhia para escutar qualquer coisa. Ela quis desenformar o bolo, coisa que nunca faço, é muito mais seguro mantê-lo na forma. É claro que grudou no fundo e que quebrou algumas partes. Mas nada daquilo importava, ríamos muito. Enquanto estava assando o bolo de cenoura, me ensinou à fazer uma Bica de Santiago. Um bolo típico da Galícia, era simples, mas ela não o tratava assim, minunciosamente seguia os detalhes da receita. No final da tarde estavam ali dois bolos. Um com o chantilly derretido por cima da calda quente e outro suculento com sua casca de açúcar e canela queimada.

Duas receitas típicas de dois continentes distantes que haviam reunidos em uma tarde duas mulheres de geração e nacionalidade distinta. Dividimos os bolos e voltei para casa. O que importava não eram as receitas impecáveis, já que apesar de todo o meu esforço talvez tenha sido o pior resultado. Ela não estava ali apenas para aprender, afinal tinha muito o que ensinar e o fez, me emprestando uma grande enciclopédia de doces da Galícia. Queria estar, rir e se preciso chorar. E pude responder não com o melhor do que faço, com minha performance, ou minha arte cênica, mas com aquilo que mais me custa, com minha pior vulnerabilidade e fragilidade. Dei meu pouco e recebi o muito.

“Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei…”  (Mateus 25.21)

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