
Interessante é a vida de quem se deixa ser levado pelo Vento. Em um dia toma banho de bacia e caneca e em outro, numa banheira de hotel no interior de Portugal.
Antes de te contar essa história, deixa-me primeiro te contextualizar. Aqui no pueblo onde estou na Espanha, na maioria das casas a água não é aquecida via eletricidade e sim a gás. Têm se um pequeno maquinário que conectado por uns fios aquece a água, parecido com a miniatura daquele que era o pesadelo de Macaulay Culkin no porão da casa na qual fora esquecido. Em minha moradia fica instalado na parede acima da pia.
Acontece que nesse fim de semana mais especificamente no sábado, quando o homem da casa saiu de viagem e eu fiquei só, com os dois meninos, ele resolveu estragar. Chamei a senhorinha do andar de cima (a dona da casa) que prontamente ligou para o filho mecânico. Em sua ciesta ele veio até a casa e constatou o triste fato que o problema só seria resolvido na segunda-feira quando as lojas voltariam a funcionar e poderíamos encontrar a peça necessária. Completamente transtornada com a situação, a senhorinha começou em seu confuso espanhol misturado com galego a insistir com o filho, que dando suas últimas palavras no telefone com o especialista a interrompeu bruscamente confirmando que nada poderia ser feito.
Tentei tranquilizá-la dizendo que esquentaria água na chaleira e tomaria banho de caneca, afinal não seria a primeira vez a fazê-lo. Indignada disse que não permitiria, e que em sua casa havia muitas casas de baño. Como que em um filme, passou em minha cabeça a cena minha, saindo de um relaxante banho de dois minutos e meio e encontrando a casa revirada, com Dona Mutcha (ainda não tive coragem de perguntar seu exato nome, mas é esse som que soa ao meu ouvido) amordaçada e amarrada em uma cadeira por dois indiozinhos (o mais novo claro, apenas como coadjuvante) correndo ao redor e dando urros de guerra. Dei um sorriso e disse que não seria necessário, mas que com certeza a procuraria se fosse preciso. É óbvio que isso jamais aconteceria, falei apenas para despistá-la.
Chegada a hora do banho, enchi com água e aqueci três das maiores panelas. Logo constatei que não seria necessária tamanha quantidade. Dei o devido banho no mais velho que amou o banho de balde, e em seguida no bebê. Deixei como sempre ele brincar por um instante e tirei o do balde com a reação de quem seria levado à forca. Vesti-os e liguei o DVD de sempre, que se fosse disco de vinil era certo que já estaria furado, e fui me banhar. Decidi usar a mesma água do bebê para precaver de ficar completamente sem água aquecida. Não estava mais em uma temperatura tão agradável, mas suficiente quente para o tempo que uma mãe leva para se limpar.
No outro dia repetimos o ritual de purificação depois de novamente despistarmos a senhorinha. Segunda-feira tudo voltou à normalidade, enfim havia água quente saindo pelo cano, e o homem de volta a casa com uma revigorante notícia: Tínhamos ganhado uma noite em um hotel quatro estrelas!
Chegado o dia da viagem, entramos todos no carro. Dado o pouco tempo que tive para preparar a bagagem com dois meninos no meu pé, sou inocentada da quantidade de sacolas e mochilas desnecessárias para uma viagem de uma noite. Fomos a um SPA em uma cidade do interior de Portugal. Um presente dado por amigos sensíveis ao clamor silencioso de uma mãe, esposa, missionária, artista e equilibrista de profissão e nesses dias principalmente da vida.
Chegado ao quarto liberei as duas crianças, como se libera um animal enjaulado, e elas foram destruir, quer dizer explorar o quarto do hotel/SPA/quatro estrelas. E eu fui ao que sempre me interessa: o banheiro! E lá estava ela, branca como a neve rodeada por azulejos brancos e pretos, só esperando ser cheia com água quente, sais de banho, óleos essenciais e a minha pessoa segurando um bom livro, uma taça de vinho (que apesar de não gostar fica bem na cena) e velas iluminando o ambiente. Ok! Sendo mais realista, esperando ser cheia com água morna, brinquedos de borracha, eu e mais duas crianças espalhando água por todo banheiro. Mas enfim, ela estava ali e eu a aproveitaria ainda assim, mesmo que um pouco diferente da expectativa. Afinal, tinha passado o fim de semana tomando banho de caneca da água morna que sobrara do banho do bebê. Novamente compartilharíamos a água, só que agora em um novo recipiente.
O que me fez matutar (como diz nós mineiros), sobre o ditado: “Não jogue o bebê fora junto com a água do banho”. Diz que tem sua origem em épocas remotas da Idade Média na Inglaterra, mas minha memória de infância me faz acreditar que o fator originário do ditado também acontecera há poucos anos em minha família paterna. Buscando fontes confiáveis parece ser um fato dúbio, porém permito nessa crônica, me recorrer ao inconsciente da criança que sempre é muito mais rico e interessante do que a realidade do adulto.
Lembro-me de ouvir a história que em uma fazenda do interior de Minas Gerais, vivia meu pai, seus três irmãos e seus pais. No momento de se banharem, em uma única tigela, se obedecia à hierarquia: patriarca, mãe e em seguida os filhos em ordem decrescente. Muitas vezes o último a se banhar era o bebê. Fato que nunca aconteceria na atual geração onde se banham os bebês em álcool em gel. Se é verdade o ocorrido eu não sei (Talvez até saiba, mas não quero estragar a história), porém que foi a partir deste costume em épocas remotas que surgiu o ditado, isso posso afirmar.
Acontece que quando a água já estava turva devido à sujeira, corria se o risco do bebê ser lançado fora, junto com ela. Era necessário ter cuidado para não se desfazer de algo de valor, devido à sujeira ou contaminação do seu entorno.
Não tenho objetivo de me atentar aos detalhes higiênicos e insalubres da situação, mas andando pelas ruas de Melgaça, a pequena cidade onde se situa o SPA, contemplando a sua beleza histórica e o quanto ainda seus muros e muralhas de pedra carregam vida com seus presépios vivos e músicas natalinas tocadas em alto-falantes, verifico um triste fato: o quanto perdemos em não nos deixar sermos contaminados com a água de nossos ancestrais, nossa história. Queremos tanto uma vida asséptica, independente e pós-moderna, que esquecemos o quanto Dona Mutcha tem a ensinar com suas histórias. Tenho pressa em descobrir quem sou e a ser essa pessoa com tanta certeza a fim de me realizar, que lanço fora a terra deixada na água da bacia por meus pais, meus avós, meus ancestrais, e que me levarão à bandeira do meu clã, ao meu legado de vida.
O melhor que posso oferecer aos meus filhos, não são os banhos estéreis de sujeira e de vida que os prepararão para o mercado, mas são as manhãs no trator ou se escondendo do avô que dorme no meio da brincadeira, balançando no banco de madeira do jardim ou comendo o bolo de cenoura da avó. É deixar rastros do que veio antes, para todos os momentos que precisarem voltar e se encontrar. É por isso que me encanto todas as manhãs aqui nos parquinhos, vendo aqueles que poderiam estar sentados e descansando, com seus cabelos brancos e passos lentos, empurrando carrinhos e gritando: “Cuidado cariño!”. Esses nunca deixarão de banhar os seus com suas histórias, sendo elas reais ou não.
Agora se o fato da bacia aconteceu ou não na fazenda do interior de Minas, deixarei que os que vierem após mim, descubram.
“…eles acampavam junto às suas bandeiras e depois partiam, cada um com o seu clã e com a sua família.” (Números 2.2)

Diii que maravilha !!! Eu consigo imaginar cada cena relatada aqui por vc !!! Que Deus continue abençoando vc e sua família vcs são preciosos pra nós !!! Amamos vcs
CurtirCurtir
Diana, amo ler suas crônicas! Essa por exemplo, me remontou aos anos cheios de histórias de minha infância!
Ah! Que bom que puderam desfrutar de um mais que merecido descanso… 🛀🛀😘
CurtirCurtir