A quina do quebra-cabeça

Comprei um quebra-cabeça! É para os dias chuvosos aqui nesse pequeno vilarejo de Moaña na Galícia. Não foi caro, encontrei numa lojinha em frente à praia que visito quase todos os dias. Possivelmente porque é a única que meus Euros me permite entrar.

500 peças! Acho que fui ousada, ainda mais pelo meu objetivo de entreter uma criança de 4 anos. Mas foi o único cuja imagem me atraiu. Uma rua estreita, com faixadas de muro de pedras, vasinhos de flores miúdas vermelhas e roxas. E um muro descascado com ramos de folhas grandes e vermelhas. Parece que dessa forma, mesmo com a chuva estou caminhando pelas ruas daqui.

Sai debaixo de chuva obviamente. Com o frio cortando o rosto, quando o pai das crianças chegou do trabalho, logo após a ciesta. Precisava sair! Respirar ares longe da calefação. Mas mãe pode até sair de perto, mas eles nunca saem de dentro

Reuni minha fortuna impressa no metal e entrei na loja. Primeiro comprei uma meia calça preta para me sentir uma mulher livre e independente e em seguida corri para a sessão de brinquedos para enfim me realizar.

Pensei: ainda me restam 41 dias, com possibilidade de chuva pela manhã e no fim da tarde. 1000 peças seriam demais, 500 peças talvez suficientes.

Paguei os 4,50 euros tentando entender o espanhol com sotaque oriental. Fechei o agasalho, agarrei a caixa ao peito, já que minhas moedas não davam para comprar o saco plástico e tentei segurar os passos para aproveitar os minutos restante da solitude. Apesar de que por dentro estava ansiosa para derramar aquelas 500 peças na mesa de madeira forrada com um forro de plástico grosseiro, azul, com flores e frutas muito mal pintadas que a senhorinha que nos alugou a casa advertiu severamente para usá-lo como proteção. Apesar de arruinar a decoração romântica de nossa temporária casa, combinava perfeitamente com o improvisado tapete de edredom de penas de ganso com brinquedos e mordedores espalhados no meio da sala.

Bati na porta branca na casa de pedras e quem abriu a porta como sempre foi ele, com seus 4 anos de puro entusiasmo e energia, que com certeza roubou de mim  no momento do parto.

Mostrei para ele, que quis abrir no exato momento. Expliquei como se explica a uma parede e ela te compreende, que tinha que primeiro alimentar o mais novo. Foram momentos longos de tortura, só não consegui decifrar ao certo quem era a vítima da vez.

Enfim, chegou o momento. Dadas as devidas recomendações e instruções, sentei com o meu roupão cinza e uma xícara de chá de menta, suspirei animada e acreditei iludida que teria um lindo e prazeroso momento materno. Não! Não foi como na propaganda da Margarina Qualy. Em poucos segundos lá estava ele espalhando as pequenas peças no chão de azulejo estampado, desmontando os pequenos trios que bravamente eu conseguira montar, tentando encaixar a flor vermelha com ramos verdes no meio de um céu azul sem a mínima lógica e em seguida me perguntando: “Acertei mamãe?”.

Hoje, vendo de fora, creio que no mínimo a cena deveria estar caótica e cômica, pelo menos era o que se via no sorriso de canto estampado na cara do pai que embalava o mais novo.

Chegado ao nível mais drástico, me revesti de toda minha autoridade instituída de mãe, e disse que era hora de criança dormir. Aos trancos e barrancos, não muito diferente dos outros dias, todos os menores de idade estavam deitados.

Enfim, adultos sozinhos depois de um dia exausto fazem o que? Não! Não nessa noite. Eu tinha uma importante missão a cumprir. Separar e encaixar todas as peças de canto antes do amanhecer. Para minha angústia, faltou uma quina, uma tão fundamental quina. Quase a pedra angular de um quebra-cabeça. Tinha certeza que o pestinha de 4 anos em sua euforia, acreditando ser o Silvio Santos diante das cartas do programa “Porta da esperança”, havia perdido.

Eu havia revirado as peças umas quatro vezes quando frustrada fui para a cama, armei o alarme para um horário que era certo que os meninos ainda estariam dormindo, fechei os olhos e tentei acalmar a alma até que as peças sumissem da mente. O alarme não tocou! Levantei assustada, o pai já não estava na cama. Quando saí pela porta do quarto que dá direto à sala onde fica a mesa de madeira, coberta com o forro desenhado por crianças, lá estava ele, ajoelhado na cadeira, com suas mãozinhas ágeis e desastradas, quase deitando no que eu já havia montado. Quis advertir, só que lembrei do propósito do jogo, e com uma voz um pouco engasgada dei um “bom dia”, enquanto meus olhos rastreavam o estrago que havia sido feito.

Para minha surpresa, lá estava ela, a quina, encaixada no exato lugar, cheguei mais perto incrédula, olhei para os olhinhos pequenos ainda com remelas e perguntei:“Onde você achou essa pecinha?”, ele respondeu apontando de maneira inocente: “Na caixa mamãe. Estamos conseguindo né?” “Sim estamos!”, respondi ainda extasiada.

“Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado.” (Lucas 10.21)

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